PRÓLOGO DO AUTO DA LISBOA VELHA

PRÓLOGO DO AUTO DA LISBOA VELHA
 
     Pertence o mestre Roque Gameiro àquela boa raça dos artistas com solidez — solidez em tudo, na arte e na vida. Este feitio de homens — cada vez mais raros em um tempo em que a tantos avassala a corruptora tentação do Dinheiro — alicerça-se em bases que continuam a ser, e sempre hão de ser, as mais belas: na altura moral de suas dignidades, na técnica poderosa e seriíssima de suas obras, e na limpidez, carinho e ambiente de seus lares, de que a Casa da Amadora se ennobrece como exemplo.
     Do Lar patriarcal de Roque Gameiro têm saído, para seguirem claros rumos de vida, as Filhas do artista, discípulas de seu Pai, artistas elas próprias de probo, gracioso e original talento. E, ao calor da lareira em cuja fábrica piedosamente colaboraram as suas mãos e as de todos os Seus, a vida do bom mestre tem decorrido, serêna no labor, segura nos triunfos, honrada nos êxitos.
     Mas este homem caseiro, que estima, ao jeito dum flamengo, o recato dos interiores, pertence também à grande escola dos artistas caminheiros, os quais elegem para oficina de trabalhos os campos e as praias, os vales e os montes, se embebem de luz e de ar livre, se encantam com a côr e a linha dos aspectos e com o carácter das gentes que os povoam. O grande desenhador e aguarelista conhece a palmos a terra da sua Pátria, por onde há mais de quarenta anos jornadeia. Sempre vestido de briche nacional, rude estofo tão azado para as calmas do Verão como para os frios do Inverno, este homem, moço de espírito, achou o segredo da perpétua juventude no enternecimento com que jamais se cansa de colher as fisionomias doces, severas ou amplas da Grei. Para guardar-lhe os traços suaves, ou grandiosos, tem subido as serras ásperas e tem desenhado, ao ritmo das vagas, a bordo de batéis de pescadores. Com poder comunicativo de homem lhano em quem as lhanas criaturas do povo adivinham um parente quanto superior, porém afável, demorou-se a conversar, de mão a mão, com marítimos, lavradeiras e zagais, cujo carácter transfunde em seus desenhos. E, deste modo, trespassado de lusitanismo, Roque Gameiro tem produzido, com tão exemplar seriedade e tão adestrado talento, o que se me afigura um vasto Livro de Horas português. Creio, em verdade, que este mestre descende dos nossos admiráveis iluminadores dos séculos xv e xvi, os quais nos legaram terníssimas páginas, tão sentidas nas atmosferas, nas árvores e nas personagens, que ainda agora as reconhecemos por bem nossas, desta terra e desta alma. Publicou a Lusitânia, no seu fascículo do Natal, a reprodução duma iluminura do Livro de Horas de D. Manuel. Quando se olha para esta paisagem invernal, em cujo céu se recortam um campanário e ramos despidos, e se considera a fisionomia das casas, mais aquela preciosa nota rústica do burrito parado no caminho, dir-se hia que respiramos o familiar perfume desse chão. Sentimos, então, que céu, árvores, coisas e gentes, todos são de Portugal, e que o desenhista manuelino — de certo bom caminheiro, por tão curioso do natural como Roque Gameiro se tem mostrado — vem a ser um dos avoengos deste artista, iluminador de modernas Horas nacionais.
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     Ao mesmo tempo que o amorável, incansável viajante da terra de Portugal, ia lançando a campos, águas e figuras, olhos enternecidos ou deslumbrados, o artista, arqueólogo e apaixonado do derradeiro carácter de Lisboa, buscava na cidade os últimos vestígios do que é lindo, pitoresco, evocador. Este Álbum representa o mais fino amor dum lisboeta à sua urbe cara, e deve ser colocado junto aos volumes de Júlio de Castilho, para avizinharem as suas encantadoras homenagens à cidade cada vez mais estragada, por menos compreendida.
     Com a mesma ternura de paisagista com que jornadeou pelas nossas províncias, Roque Gameiro embrenhou-se pelas penumbras ou sorrisos dos bairros arcaicos, pela Lisboa Velha. Abandonada, mas quantas vezes linda. Acusada de infecta, mas respeitada — misteriosa ironia! — pelo furor da recente peste. Afamada como perigosa, mas onde se podem mirar as únicas janelas floridas, — frescura para os olhos ressequidos por tanta alvenaria, numa cidade onde, segundo Baudelaire, o povo arranca, por ódio ao vegetal, todas as árvores. E tão povoada ainda de evocações, que bem podemos ter por mais venturoso o pobre que se debruça duma rótula, sob um beiral vermelho, que o rico ou remediado habitante de certas avenidas, morador de prédios que aluem com as chuvas e exalam nos interiores a lividez intestinal dos estuques. Em-fim, a Lisboa que ainda guarda fisionomia própria, e a única que é capaz de cativar as pessoas para quem os Museus não sejam os Grandes Armazéns, ou Catedrais os Bancos de fachadas insolentíssimas.
     Oh! cidade mártir entre as cidades do Orbe, mártir dum chão fendido e histérico, mártir dos homens, porém, muito mais que dos azares da natureza! Foi necessário que a mais absurda anarquia mental nos houvesse obliterado, não jà o superior senso estético, mas o simples senso-comum, para que esta capital, sublimada nas mãos de Deus Criador, que tão voluptuosa a ritmou de colinas e debruçou no Rio, tivesse descido até aos desconchavos, aos crimes, às idiotias da farça contemporânea, composta, por uma banda, de chiquezas horriveis, e, por outra, ansiosa em falsificar ou desonrar o que lhe resta de grandioso e urbano, e de demolir ou desprezar o que ainda guarda de tocante, amorável e lindo!
     E o que mais arripia, e nos faz pálidos, é que a gafa da capital se derrama para as províncias, onde gente ordinária, de dinheiro ou de município, instaura as novidades que em Lisboa a deslumbra. Deste modo se pôde entaipar o Penedo da Saudade, em Coimbra, perdendo-se a espiritual visão do vale dulcíssimo, vale de lágrimas tão brandas que jamais o puderam esquecer os olhos que por seus verdes se afagaram. E, com semelhante inspiração, se ergueu na Portagem do Mondego o títere dum político perverso, projectado num ambiente onde apenas achariam rítmica harmonia a imagem da Santa ou da Morta de amor.
     Despojada Lisboa, de-baixo do Sol mais criador de longes encantados!.. .
     ¿Onde estão os padrões do seu esplendor, se não nos edifícios, pois jamais calhou em muitos erguer monumentais, no seu recheio de Trapizonda manuelina? ¿Que é feito dos tesouros desta senhora dos Mares, rainha dos Aléns, jóia na testa da Europa, banhada por um rio cuja foz era no Índico, e metrópole que enviou a Roma embaixada capaz de deslumbrar um Medíeis pontifício?
     Quando, em Londres, um Português penetra no Museu Indiano, do Kensington, onde o imperialismo da Inglaterra pôs, com orgulho, ao peito, tamanha evocação do Oriente exilada entre brumas pluviosas, não deixa de pensar que era aqui, na capital do Reino doador de Bombaim num dote de princesa, que tal Museu precioso se integrava, com as colunas dos templos, os esmaltes dos ídolos e os íris das jóias acariciados pela luz do caro Tejo.
     Mas quási tudo em Lisboa são restos (demoraram, por milagre, lá longe, a Torre e os Jerónimos, estes com vilipêndio de restauros), restos de preciosidades escapas à rapina dos saques, às dispersões da incúria, à indústria dos roubos, e aos estremeções do solo, não tão funestos como tudo o mais.
     Os próprios Painéis de São Vicente, reveladores, no mundo, da nossa escola de Pintura; e suprema glória da cidade onde o seu Padroeiro é adorado, surdiram como prodigiosos náufragos ante uma população alheada de si-mesma, numa capital esquecida de si-própria.
     Atroz Lisboa, sob o azul mais lindo!,. .
     Não cuida ela em nos ministrar os bons cómodos da higiene e cultura universais, comuns às capitais da Cristandade.
     Deixa vadiar rebanhos famélicos de crianças e expor ao colo de mendigas profissionais — horror supremo! — os bebés moribundos, de sorte que as suas ruas são as mais dolorosas do mundo de Cristo. Ao passo que nos ratinha, somítica, a luz, o calor e a água, não aprende a resolver o problema, em toda a parte resolvido, de equilibrar o moderno com o arcaico, e de criar um tom de decorosa harmonia, com ritmo de unidade. Delira com pontes fabulosas e sonha com metropolitanos fantásticos. Não lhe dói, porém, que o seu mais formoso monte, altar sagrado de tradições desde a Conquista, continue encimado por um palácio que o abandono torna sinistro, por mais que os beijos do Poente em cada tarde redourem a carcassa do que devera ser coroa ou elmo. Acomete a camartelo as derradeiras muralhas e bastiões que a brasonavam, e enfeita-se, dia a dia, com as galas horrendas do relismo cosmopolita.
     ¿Que fêz Lisboa, nas últimas décadas — mas, sôbre-tudo, nos últimos anos, — da Baixa pombalina, esse bairro, monótono, sem dúvida, mas quanto nobre na proporção, na solidez, na côr e pitoresco dos prédios, cuja conservação e tons de pintura a ordenança municipal impunha aos donos? Sou dos que negam a Pombal, tão grotescamente consagrado pelos nossos democratas como deus da «Liberdade», o génio que oradores idiotas lhe decantam.
     Mas a verdade é que o Marquês edificou, sobre os escombros do terremoto, ou nas clareiras que os tiros de peça foram abrindo, uma bela traça de capital, rompendo, com a Rua Augusta, a mais notável artéria urbana da Europa da sua época, e ao-pé do rasgo da qual os boulevards de Paris, construídos um século depois, não testemunham tal cunho de audácia.
     E que é hoje a Baixa?
     Por certo as almas e os olhos dos lisboetas se lhes hão ennublado de lastimosas morrinhas, para que suportem, sem intoxicação ou revolta, os aspectos anárquicos e a desonra histórica de tantas perspectivas, como, por exemplo, a da Rua do Arsenal, que ostenta, ali no nariz dos homens bons do Município, a lepra multicor dos cartazes, colados na grave fachada pombalina, os quais alastram para as arcadas da maravilhosa Praça, ameaçando vir em breve a afixar-se na patina brônzea do corcel de D. José.
     Sem semelhante obliteração moral e visual, ¿como se compreenderia que na praça de Camões, a qual nos foi legada medíocre mas decente, ladêeim o monumento do Poeta os quiosques de bebidas, que lhe imitaram, por escárneo subtil, a arquitectura?
     Nesta Lisboa mais moderna, a dos Bancos, dos cafés políticos, das novidades torpes, simbólicos da vida e acção do Estado, e as quais, dos baixos da sua indiferença expatriada, a Nação vai contemplando, um Europeu de olhos afinados sentirá a cólica que é capaz de produzir, por exemplo, o Rossio, o qual, por detrás da agressiva sarabanda das cores desentoadas, mantém todavia, — e quanto fácil também de ressurgir à luz — o seco mas nobre carácter com que os arquitectos do Marquês lhe idearam, sobre as ruínas, a unidade do ritmo.
     Estrangeiros como somos — por sermos Portugueses puros — nesta cidade bancária e andrajosa, demolidora e arrebicada, onde continua a representar-se a comédia da lúgubre anarquia sob a luz mais decorativa da Terra — e a mais esforçada em recompensar o menor decorativo esforço! — restam-nos dois recursos, a-fim-de consolarmos o singular desterro: — o Tejo e a Lisboa Velha. Para sentir o Rio, que o final Constitucionalismo cometeu o nefando crime de matar, com divorciar da cidade, mais que todas fluvial, o maravilhoso curso de água atlântica, empreenderemos o passeio do Dafundo, até aí atravessando, quási sempre, corredores infectos, sem ar, e podendo, em-fim, caminhando sobre a areia dourada da praia, enamorarmo-nos do Tejo da Ínclita Ulissea. Para nos encantarmos com a Lisboa Velha, procuraremos, levados pela mão de Roque Gameiro, a Lisboa dos artistas, dos arqueólogos, ou dos passeantes possuidores de gosto e cultura. Então iremos invocando a Lisboa sarracena, em cujas feições o Mourisco deixou persistentes traços; a Lisboa da Alfama de saborosos nomes de ruas, poupados, por milagre, pelas nomenclaturas municipais, e de congostas, escadas, fachadas, arcos e caprichos tão evocadores, que nos é fácil, em propícia luz e hora, visionar a festa de São Frei Pêro Gonçalves, cuja imagem de padroeiro os marítimos do bairro levavam em procissão, entre bailes e folias. Demorar-nos hemos em certos adros de igrejas, povoados de remoto silêncio, como esse miradoiro de Santo Estêvão, onde súbito aparece a alma oceânica duma cidade de mareantes, devotos da Virgem.
     Enternecer-nos hemos, sôbre-tudo, à vista das derradeiras casas com raizes no nosso sentimento, tal essa jóia quinhentista do Menino de Deus, tão airosa na vizinhança do rococo sumptuoso, e que seria fina moradia para namorados, a qual todos os amorosos cobiçam, e diante de cuja arquitectura, íntima e nobre, tão fundamente portuguesa, com suas proporções de piqueno paço popular, nos acodem à lembrança figuras de Gil Vicente...
     Tudo isto Roque Gameiro nos oferta no seu Álbum, este Auto da Lisboa Velha, composto em décadas de carinhoso trabalho, e onde a mestria do ilustre desenhista nos surge, como sempre, sincera na comoção com que se enterneceu vendo o que amou ou lhe deixou saudades. Obra interessantíssima de artista, e também obra piedosa de patriota, porque, de muitos desenhos que neste Álbum se estampam, os originais desapareceram, sumidos na desordem agreste de tanto acaso.
     Assim ao menos o bom mestre logrou salvar, para regalo das nossas afeições nacionais, alguns ternos e preciosos documentos de história e evocação desta Cidade.
                                                              AFFONSO LOPES VIEIRA
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