Lisboa Velha (1925)

                 Título: Lisboa velha
                 Autor: Alfredo Roque Gameiro
        Publicação: Lisboa, Praça dos Restauradores, 24 : Tipog. da Emprêsa do Anuário Comercial, 1925
            Prefácio: Afonso Lopes Vieira (1878-1946)
   Ilustrações de: Alfredo Roque Gameiro (1864-1935)
Descrição física: [14 p.], 100 estampas, [4 p.] : principalmente il., p&b e color. ; 29x21 cm
                Notas: No verso do rosto menciona: "edição de vinte exemplares numerados e rubricados pelo autor"
                                 No cólofon menciona: "Encadernação das oficinas de Paulino Ferreira, Rua da Trindade, 82
                                                                    - Lisboa - MCMXXVI"
        Informação: Biblioteca Nacional de Portugal
 
                        Ver: O pintor A. Roque Gameiro em Lisboa - Google
   Artigos de jornal: 1926-01-     - - A obra Lisboa Velha de Roque Gameiro
                               1926-01-     - - Lisboa Velha
                               1926-01-     - Diário de Lisboa
                               1926-01-     - O Século
                               1926-01-09 - Diário de Lisboa
                               1926-08-01 - Ilustração
                               1993-01-21 - Diário de Notícias
                               1994-01-     - Casa e Decoração

 

     Como já foi anteriormente afirmado, a cidade de Lisboa serviu ao artista de motivo inspirador para a obra que denominou Lisboa Velha.
     O álbum, prefaciado por Afonso Lopes Vieira, foi editado em 1925. Trata-se de uma edição do próprio autor, dedicada aos netos.
     Numa sucinta, mas elucidativa nota de abertura, Roque Gameiro sintetiza a génese da obra, resultado final de um conjunto de desenhos e de aguarelas que foi pintando ao longo de trinta anos. Diz a uma determinada altura:
     "Essa sincera mágoa e uma natural e saudosa atracção pelas coisas do passado, levaram-me desde há trinta anos, a pintar em aguarelas, a desenhar e a documentar graficamente conforme pude e soube, todos os pormenores que pouco a pouco iam desaparecendo da fisionomia da cidade, tarefa onde pus o melhor dos meus esforços e o carinho muito verdadeiro que consagro às coisas da minha terra.
     Essa tarefa é este livro e eu não sei dizer melhor das minhas intenções".1
     Destas linhas, saídas da sua mão, ressuma uma nota de melancolia; ele sente que as transformações a que a cidade vai sendo submetida não só lhe alteram a fisionomia, mas lhe fazem perder muito da sua intrínseca essência.
     As imagens, captadas ao vivo do quotidiano dos seus habitantes, permitem uma visualização descritiva da velha Lisboa, mas também nos contam histórias se soubermos ouvir as narrativas sobre os vetustos bairros e as suas gentes. Sente-se o pulsar de uma vida intensa e as personagens que o pintor observa não são estaticamente estereotipadas. Elas deixam transparecer, pelas atitudes em que são captadas, uma dinâmica própria de um ser vivo, das suas particulares vivências.
     Este trabalho permite-nos reviver, embora com uma nota de nostálgica saudade, a Lisboa de outras eras, como diz a canção.
     Tal como acontece com as publicações em que Roque Gameiro colabora, também Lisboa Velha foi objecto de repetidas notícias na imprensa contemporânea. Podemos ler num artigo do Diário de Lisboa: "Com um anunciado prefácio do Dr. Afonso Lopes Vieira saíram já a lume os dois primeiros tomos do álbum Lisboa Velha".2 Também o jornal O Século inclui, no mesmo ano, uma informação idêntica a nível do contexto e da intenção.
     O doutor Fernando de Pamplona escreve um artigo sobre esta obra, sintetizando alguns aspectos temáticos e formais e revelando, simul­taneamente, o apreço que o talento do pintor lhe merece: "Foi na evocação pictórica da velha Lisboa que Roque Gameiro mais e melhor ilustrou o seu nome. Lírico e saudosista por natureza, apaixonou-se pelas velhas pedras patinadas pelo tempo, pelas antigas ruas lisboetas cheias de sabor, de colorido, de palpitação luminosa, que povoou de buliçosas figuras de antanho, de sécias e peraltas, de rufiões e de severas. Recantos típicos da Mouraria e de Alfama, da Costa do Castelo, do Bairro Alto ou da Madragoa, alguns deles já infelizmente demolidos pelo camartelo da modernização e das novas exigências urbanísticas, revivem nas suas inconfundíveis aguarelas de tintas caridosas e envolventes. Refira-se, por exemplo, Rua do Arco do Marquês de Alegrete, pelo seu opulento cromatismo, ao mesmo tempo vibrante e delicado, pela movimentação das figuras de outras eras com seus trajos vistosos, renascidos na alma do poeta aguarelista".3
Maria Lucília Abreu
in Roque Gameiro - O Homen e a Obra, ACD Editores, 2005

1 GAMEIRO; Alfredo Roque. Lisboa Velha. Explicação. Lisboa. 1925. edição do autor.

3 PAMPLONA. Fernando de. A mestria e a técnica de Roque Gameiro. Diário de Notícias. 13 de Dezembro de 1984.

 

 
EXPLICAÇÃO
 
     Não esquecerei jamais a impressão de sumptuosidade e de admiração que senti quando, ahí por Fevereiro de 1874, vindo da minha humilde aldeia, entrei em Lisboa.
     Não tinha visto até então mais do que os casebres dos modestíssimos lavradores a cuja família me honro de pertencer.
     A Lisboa do fim do século xix, e especialmente a cidade baixa, caracterisadamente pombalina, apesar do seu fraco movimento e da monótona harmonia das suas construções, impressionaram o meu espírito de provinciano ingénuo, moço e ignorante, como a ultima palavra do urbanismo estonteante das capitaes.
     Começava n'essa ocasião o assentamento da linha de Carris de Ferro Americanos, do Terreiro do Paço ao Conde Barão, e existia, não havia muito, a carreira de vapores de rodas para Alcântara e Belém, de cuja opulenta frota fazia parte o roncador e cuspinhento vapor Progresso, com seu simbólico titulo de arrojado meio de transporte, e no qual tantas vezes embarquei.
     Conheci eu mui particularmente as ruas de S. Paulo e da Bôa Vista, e comquanto ligassem a parte ocidental da cidade com a baixa, não eram então, e apesar de tudo, mais movimentadas do que é hoje qualquer rua dos bairros excêntricos.
     Sob o ponto de vista pitoresco, julgo terem sido estas ruas as mais características, e de mais surprehendente efeito perspético, o qual lhes vinha do seu arco e da sua longa fila de prédios desegualmente altos, e em cujas fachadas haviam enxertado remates de variadissimas e graciosas curvas — evolução lógica da frontaria típica dos séculos anteriores.
     Breve porem, estas ruas, e as do resto da cidade, passaram infelizmente pelas maiores e mais desconchavadas transformações e, mais por preversão do gosto do que por necessidades de facto, foram as construções pombalinas e os seus lindos pormenores, sendo substituídos pelas correntezas de banalissimos casarões de platibanda, cheios de reles exotismo, os quais, por minha desgraça e de alguns outros, que assim pensam, somos, quaes passageiros deste outro «Progresso» — obrigados, bem constrangidamente, a olhar todos os dias.
 
     Vêm estas linhas para justificar e assignalar o desgosto profundo que desde sempre venho sentindo ao ver destruir-se todo o pitoresco de Lisboa, desgosto hoje corrente, mas que mercê da minha edade fui, talvez, dos primeiros a sofrer.
     Essa sincera mágua e uma natural e saudosa atração pelas coisas do passado, levaram-me, desde ha trinta anos, a pintar em aguarelas, a desenhar e a documentar graficamente conforme pude e soube, todos os pormenores que pouco a pouco iam desaparecendo da fisionomia da cidade, tarefa onde puz o melhor dos meus esforços e o carinho muito verdadeiro que consagro ás coisas da minha Terra.
     Essa tarefa é este livro — e eu não sei dizer melhor das suas intenções.
     Affonso Lopes Vieira, que me acompanha com a sua alma de grande poeta e de grande português, melhor do que eu próprio me explicará.
     Daqui pois lhe agradeço do fundo do coração as palavras com que ilumina as minhas despretenciosas e modestas notas gráficas.
Roque Gameiro
 
 
por AFFONSO LOPES VIEIRA
 
 
Pode ver como são estes locais na actualidade em:

 

 
Estampa 01
Rua de S. Pedro
ao Largo do Chafariz de Dentro
 
Ver também:
Exposição de 1914
Estampas 30, 46, 82 e 88
 
Estampa 11
A Baixa vista do Jardim
de S. Pedro de Alcântara
 
Estampa 21
Rua do Bemformoso
Ver também:
Estampa 06
 
Estampa 31
Rua das Farinhas
(Colecção Frederico Nunes Teixeira)
 
Ver também:
 
Estampa 41
Princípio das
Escadinhas de S. Miguel
(Colecção Afonso Lopes Vieira)
 
Estampa 51
Escadinhas dos Remédios
(Vista de baixo)
(Colecção Fernando Emídio da Silva)
 
Estampa 61
Rua da Judiaria
 
Ver também:
Exposição de 1911
 
Estampa 71
Casa no
Largo do Menino Deus
 
Ver também:
Exposição de 1911
 
Estampa 81
Beco dos Cortumes
 
Estampa 91
Escadinhas de S. Cristóvam
Estampa 02
O Rossio
Estampa 03
Na Rua da Mouraria
Ver também:

Estampas 13, 28 e 35

Estampa 04
A Igreja do Triunfo
Alcântara
Estampa 05
Calçada da Bica Grande
Estampa 06
Casas na Rua do Bemformoso
Ver também:

Estampa 21

Estampa 07
Junto ao Paço de D. Fernando
no Largo da Saúde
Estampa 08
Na Rua de S. Miguel
Alfama
Ver também:
Estampas 18, 43, 54 e 89
Estampa 09
Beco do Castelo
 
Ver também:
Estudo
Exposição de 1911
Estampa 10
Largo da Achada
 
Ver também:
Estudo
Exposição de 1911
Brasil-Portugal de 1911-11-16
Estampa 33
Estampa 12
Rua do Vieira Portuense
Belém
Estampa 13
Largo da Saúde
e Rua da Mouraria
Ver também:
Estampas 03, 28 e 35
Estampa 14
Rua do Século
(antiga Rua Formosa)
Estampa 15
Arco de Jesus,
ao Campo das Cebolas
Estampa 16
Igreja da Penha de França
Estampa 17
Escadinhas dos Remédios
(vista de cima)
Estampa 18
Rua de S. Miguel
Alfama
Ver também:
Estampas 08, 43, 54 e 89
Estampa 19
Detrás da Igreja de S. Miguel
 
Ver também:
Estudo
Exposição de 1911
Estampa 20
Na Rua dos Remédios
Estampa 22
Arco de Penabuquel
Estampa 23
Pátio de uma casa
na Rua de Castelo Picão
 
Ver também:
Estudo
Exposição de 1914
O Occidente de 1914-01-20
Estampa 66
(Colecção Fernando Emídio da Silva)
Estampa 24
Esquina da Rua de S. Bento
e Rua do Sol ao Rato
 
 
 
Estampa 25
Paço e muralhas
de D. Fernando
no Largo da Saúde
Estampa 26
Travessa do Terreiro do Trigo
Estampa 27
O Arco Escuro
 
Estampa 28
Capela de
Nossa Senhora da Guia
(Rua da Mouraria)
Ver também:

Estampas 03, 13, e 35

Estampa 29
Entrada para o
Pátio de D. Fradique
Estampa 30
Beco do Espírito Santo
ao Largo do Chafariz de Dentro
Ver também:
Estampas 01, 30, 46, 82 e 88
 
Estampa 32
Rua do Arco do
Marquês do Alegrete
 
Ver também:
♦ Exposição de 1911, 1913, 1947
♦ 1911-11-16 - Brasil-Portugal
Museu da Cidade de Lisboa
Estampa 33
No Largo da Achada
Ver também:

Estampa 10

Estampa 34
Travessa de S. João da Praça
(Vista de cima)
 
Ver também:
Estampa 76
Estampa 35
Princípio da Rua do Capelão
Ver também:

♦ Ver aguarela

Estampas 03, 13, e 28
Estampa 36
Rua das Madres
Estampa 37
Rua do Loureiro
Estampa 38
Rua de Santo Estêvão
 
Ver também:
Estudo
Exposição de 1911
Estampas 39, 40, 59 e 74
Estampa 39
Arco de S. Estêvão
(Vista de baixo)
Ver também:
Estampas 38, 40, 59 e 74
Estampa 40
Arco de S. Estêvão
(Vista de cima)
Ver também:

Estampas 38, 39, 59 e 74

Estampa 42
Pátio do Prior
Estampa 43
Entrada da Rua de S. Miguel
Alfama
Ver também:
Estampas 08, 18, 54 e 89
Estampa 44
Casa quinhentista
da Rua dos Cegos
Estampa 45
Calçada de S. Vicente
Estampa 46
Princípio da Rua de S. Pedro
ao Largo do Chafariz de Dentro
 
Ver também:
Estampas 01, 30, 82 e 88
Estampa 47
Nicho na Calçado do Jogo da Péla
Estampa 48
Portal do Convento da Encarnação
Ver também:

Estampa 99

Estampa 49
Na Rua dos Corvos
Estampa 50
Porta Sul do
Convento das Francesinhas
Estampa 52
Calçada de S. Lourenço
vista do Largo dos Trigueiros
Estampa 53
Travessa da Portuguesa
da Rua do Marechal Saldanha
Estampa 54
Rua de S. Miguel
Junto à Igreja
Ver também:
Estampas 08, 18, 43 e 89
Estampa 55
Chafariz do Largo de S. Paulo
Estampa 56
Chafariz do Largo do Carmo
Estampa 57
Rua de S. Pedro Mártir
Estampa 58
Rua do Vale (a Jesus)
Estampa 59
Largo de Santo Estêvão
Ver também:

Estampas 38, 39, 40 e 74

Estampa 60
 
Casa dos Bicos
Estampa 62
Casa da Rua de Belém
Estampa 63
Pátio da Carrasco
Estampa 64
Arco de Santo André
visto de cima
Estampa 65
A Fonte Santa
(aos Prazeres)
Estampa 66
Casas da Rua Castelo Picão
Ver também:

Estampa 23

Estampa 67
Igreja de Nossa Senhora
de Monserrate
(Amoreiras)
Estampa 68
Pátio do Peneireiro
Estampa 69
Junto ao Cais das Colunas
no Terreiro do Paço
Estampa 70
Arco de Santo André
Estampa 72
A Torre da Ajuda
Estampa 73
Igreja de Santa Luzia
Estampa 74
Escadinhas de Santo Estêvão
Ver também:
 

Estampas 38, 39, 40 e 59

Estampa 75
Largo do Menino Deus
da Travessa do Açougue
Estampa 76
Princípio da Travessa
de S. João da Praça
Ver também:

Estampa 34

Estampa 77
A Torrinha do cimo
da Avenida da Liberdade
Estampa 78
Rua Possidónio da Silva
aos Prazeres
Estampa79
Rua da Galé
Alfama
Estampa 80
Rua da Regueira
 
Estampa 82
Largo do Chafariz de Dentro
Ver também:
Estampas 01, 30, 46 e 88
(Colecção Fernando Emídio da Silva)
Estampa 83
Restos de praia
junto ao Cais do Sodré
Estampa 84
Convento da Esperança
Estampa 85
Vista dos terramotos
para o Alto dos sete Moínhos
Estampa 86
A Igreja de Santo Amaro
(vista para o Tejo)
Estampa 87
Calçada de S. João da Praça
Estampa 88
Casas da Rua de S. Pedro
(ao Chafariz de Dentro)
Ver também:
Estampas 01, 30, 46 e 82
 
Estampa 89
Rua de S. Miguel
(Alfama)
Ver também:
 
 
 
 
 
 
 
64 x 40 cm, 1914
♦ Exposição de 1918
Estampas 08, 18, 43 e 54
Estampa 90
Casas da Rua da Regueira
Estampa 92
Beco dos cortumes
(visto de fora)
Estampa 93
Rua do Arco a S. Mamede
Estampa 94
Chafariz da Rua Formosa
Estampa 95
Chafariz das Janelas Verdes
Estampa 96
Chafariz da Alegria
Estampa 97
Entrada para o Quartel
da Cova da Moira
Estampa 98
Casas do Largo do Rato
Estampa 99
Casas do Largo
do Convento da Encarnação
Ver também:
Estampa 48
Estampa 100
Entrada do Palácio dos Paulistas
(antigo Correio Geral)