Rua de S. Miguel, em Alfama

Rua de S. Miguel
(Alfama)
 
Aguarela sobre papel
65,5 x 41 cm
Feito para a obra Lisboa Velha,
estampa 89
(Comprado pela Câmara Municipal de Lisboa)

Museu da Cidade de Lisboa

     Quando falamos da importância do espaço urbano, no espólio da obra do pintor Roque Gameiro, referimo-nos a Lisboa. Foi esta a cidade que ele percorreu minuciosamente, retratando os seus espaços e as gentes que por eles passaram.
   Esta imagem de uma das ruas mais típicas de Alfama constitui um expressivo documento humano. A topografia desse local pouco mudou; alguns dos tipos humanos desapareceram, mas outros permanecem. Em relação a estes, só o vestuário sofreu alterações, pois muito do seu comportamento se mantém.
   As edificações revelam uma acentuada verticalidade, que a pouca largura da rua ainda mais acentua. A intensa luminosidade que, vinda de frente, inunda quase tudo, contrasta com alguns espaços mais sombrios, onde o sol ainda não chegou. A alta torre da igreja eleva-se em plena luz, para o céu de um azul diáfano. Quase todos os prédios à sua volta usufruem, igualmente, dessa intensa claridade, diluindo-se alguns dos pormenores da sua arquitectura. O primeiro plano, envolto numa meia sombra, permite uma melhor visualização dos detalhes das velhas habitações e da roupa estendida a secar. Enfatiza-se a imagem do cobertor de riscas de cores vivas, que, sinestesicamente, permite adivinhar uma textura macia, mas pesada.
   Os habitantes ou aqueles que se limitam a passar parecem estar todos dominados por uma plácida ociosidade, exceptuando-se a mulher que se ocupa a estender roupa: quase todas as personagens são captadas em posições praticamente estáticas. O pintor não pretendeu, porém, transmitir-nos uma imagem de vida estagnada. A vida não parou, é o ritmo de vida que é lento e que se manifesta por estas atitudes de tranquilidade perante o dia-a-dia, que se repete indefinidamente, sem pressas.
Maria Lucília Abreu
in Roque Gameiro - O Homen e a Obra, ACD Editores, 2005
Ver:
1915-12-21 - O Mundo
1918-02-14 - A Capital - A Exposição dos Consagrados, por Parocínio Ribeiro