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BIOGRAFIAS E CITAÇÕES BIOGRÁFICAS

 

Maria Lucília Abreu - in Roteiro do Museu de Aguarela Roque Gameiro

 Fernando de Pamplona  -  Dcionário de Pintores e escultores

 C. da Silva Lopes  -  Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura

 J. Hormigo  - Catálogo da exposição de aguarelas

 Anto Oliva  -  Do jornal «A Venteira», 15 de Dezembro de 1921

 Afonso Lopes Vieira  -  Lisboa Velha

 Artur Portela  -  por ocasião da morte do artista

 Raul Lino  -  catálogo da exposição do 1.° centenário do nascimento do artista   

 José Augusto França  -  A Arte em Portugal no Séc. XIX

 J. Hormigo  -  Catálogo da exposição de aguarelas (Setembro de 1985)

Maria Lucília Abreu

in Roteiro do Museu de Aguarela Roque Gameiro, 2009

 

Alfredo Roque Gameiro (1864-1935)

 

O Homem e o Pintor

Esta sucinta abordagem sobre o “Mestre insigne da Aguarela como o apelidou Armando de Lucena1 não tem a pretensão de dar uma informação detalhada sobre as circunstâncias da vida do pintor, ou, mesmo, de proceder a um levantamento exaustivo da sua obra; trata-se apenas de fornecer breves notas sobre o artista, que relembrarão alguns factos relativos à sua existência e, muito resumidamente, chamar a atenção para os principais temas da sua pintura.

Não são necessárias muitas palavras para ficarmos a conhecer a pessoa que foi Alfredo Roque Gameiro. A sua vida e a sua obra falam por si e definem-no; a primeira decorreu linearmente e o virtuosismo do artista está patente em cada quadro que nos seja dado contemplar.

Homem apegado aos valores tradicionais, fá-los reviver nas temáticas seleccionadas, nas quais, artisticamente, se projecta. Aliando um desenho perfeito a um cromatismo que produz efeitos de delicada e harmoniosa luminosidade, o pintor executa aguarelas de sugestivo poder evocativo. Ao observarmos muitos dos seus quadros não nos limitamos, apenas, a admirar um trabalho de uma perfeita execução no que concerne as formas e a execução pictórica. Temos, com frequência, a sensação de contemplarmos, ao vivo, a paisagem perspectivada, quer seja no campo, à beira-mar, ou, mesmo nas ruas de Lisboa. E as figuras que tão expressivamente pintou, adquirem vida. O observador consegue, pois, interpretar o significado da visão do artista, como que peneirando no seu universo plástico: faz-nos participar do espectáculo que ele próprio observou, transmitindo-nos a mensagem em função do estímulo estético experimentado. Em muitas das imagens que o pintor fixou, transparece, por vezes, uma sugestão bucólica, impregnada da poesia de que se revestem determinados trechos da nossa paisagem. Ocorre-nos dizer que Roque Gameiro tem a alma de um poeta que substituiu as palavras pela cor.

Pintar, para ele, não constitui, apenas, um modo de vida, mas uma forma de, eloquentemente, manifestar a sua sensibilidade e a sua afeição pelo que é belo e natural, o meio de veicular a sua verdadeira vocação pela pintura a aguarela. É ele próprio quem confessa: “Tornei-me um carolla da aguarella”.2/3

Roque Gameiro considerava desprimoroso pintar a partir de um documento fotográfico, opinião, aliás, partilhada por muitos dos pintores seus contemporâneos. O aguarelista procurava inspiração na realidade circundante, deambulando em busca do motivo impulsionador da sua emoção estética, quer se tratasse de seres humanos, quer de espaços naturais. Percorreu, assim, várias regiões do país, espectador atento que contempla a natureza e que transmite a sua imagem, apenas filtrada pelo seu olhar de artista.

Ao percorrermos algumas notícias de jornais contemporâneos dedicadas ao artista, vemos aí realçados alguns aspectos característicos da sua pintura: “A sua arte é a verdade. Sob o seu pincel surgem a paisagem e as figuras portuguesas, cantinhos verdejantes de hortejos onde a água parece cantar e gerar viços, noras altas deante das casas com suas alpendradas, trechos de pontes que as cruzes velhas rematam, interiores campestres onde há um bom lume e uma grande evocação (...). Aquele singular aguarelista instala-se deante da natureza; larga ao dealbar da sua casa (...) e vae pelos campos, apaixona-se por um assumpto e fixa o trabalho com a sua arte, com a sua visão, com o seu carinho (...)”.4

Numa entrevista concedida a Norberto de Araújo, no jardim da sua casa da Venteira, o pintor deixa, implicitamente, entrever a importância da comunhão afectiva entre o artista e a natureza, estímulo necessário para a criação artística, e, em simultâneo, a necessidade de saber, cromaticamente, recriar a beleza, a partir do que é espontâneo e verdadeiro: “Quando era mais novo acontecia-me, às vezes ir por ahi fora o dia inteiro, numa volta larga e esplêndida. Levava tintas. Voltava porem sem ter pintado uma única mancha - Então não trazes nada feito? Perguntavam os meus. - Não, não vi nada! Hoje, não dou um passo que não encontre um motivo, não estendo a vista que não imagine um capricho. A natureza não é aquilo que se vê, mas aquilo que se sente. (...)”. “Roque Gameiro espalha, encostado ao muro do seu jardim aquellas impressões. Descemos ao jardim (...). Novamente em cima admiramos agora, num fim de tarde os efeitos do sol sobre umas nuvens que se adelgaçam, os campos numa gama completa de verdes, os brancos das águas que se escoam, e o horizonte calmo onde duas pombas ao longe deixam a mancha branca das suas asas.

Estas são as minhas tintas (reflexão do pintor).5

É, porém, primordial que atentemos primeiro nas circunstâncias da sua vida a fim de melhor compreendermos as motivações do artista.

Alfredo Roque Gameiro nasceu em 1864, em Minde, povoação do concelho de Porto de Mós, filho de Ana de Jesus e Silva e de Manuel Rey Roque Gameiro. Apenas com 10 anos saiu da sua terra e foi para Lisboa a fim de trabalhar sob a égide de seu meio-irmão Justino Guedes Roque Gameiro, já na altura um industrial de sucesso no ramo da litografia.

Anos mais tarde, é o próprio artista quem evoca as impressões recebidas dos primeiros contactos com a cidade, que se avoluma aos olhos da criança habituada, até ali, aos horizontes do espaço campesino onde nascera. Foi nas notas explicativas que antecedem "Lisboa Velha", obra na qual coligiu várias aguarelas e desenhos da capital, que o pintor relembra essas circunstâncias da sua infância: "Não esquecerei jamais a impressão de sumptuosidade e de admiração que senti quando, ahí, por Fevereiro de 1874, vindo da minha humilde aldeia, entrei em Lisboa. Não tinha visto até então mais do que os casebres dos modestíssimos lavradores a cuja família me honro de pertencer.6

Nem sempre é possível proceder-se a uma plena reconstituição da vida de grandes homens, pois o tempo dilui informações biográficas, possivelmente porque nunca chegaram a ser cabalmente esclarecidas mesmo em vida dessas pessoas, ou porque tenham sido consideradas irrelevantes como contributo da sua personalidade humana e artística. Talvez seja essa a razão que justifique um desconhecimento quase total sobre acontecimentos relativos aos primeiros anos que Roque Gameiro passou em Lisboa, sobretudo no que diz respeito ao seu percurso académico. Foi necessário o recurso a fontes dispersas, algumas bastante vagas, mas que contribuíram, todavia, para que se acrescentassem mais alguns dados sobre esse período da existência do artista.

Através de algumas notas escritas pela filha mais nova, Mámia Roque Gameiro Martins Barata, ficamos a saber que o pintor se revelou uma criança precocemente dotada para o desenho. O pároco de Minde que lhe ensinou as primeiras letras e rudimentos de aritmética queixava-se de que o seu desmotivado aluno “só queria fazer bonecos.7

Um catálogo de exposição de Belas-Artes fornece-nos mais alguns elementos que nos permitem deduzir que o artista tenha sido aluno do Colégio Académico Lisbonense, ainda que se desconheça o ano em que se verificou essa frequência.

Em 1882 realizou-se uma exposição comemorativa do centenário do Marquês de Pombal, promovida pela comissão de estudantes de vários liceus e colégios. Foram expostos vários trabalhos a aguarela, assinados pelos respectivos autores. Entre esses nomes figurava o de Alfredo Roque Gameiro que apresentava dois quadros, Marinha e Desenho de Figura, cópia do natural, como aluno do citado estabelecimento de ensino. Ainda que alguns desses exemplares se encontrem datados, nas imagens da autoria do aguarelista, está omissa a data. Deste modo, não nos foi possível situar, cronologicamente, a sua passagem por esse colégio. Porém, em virtude de as datas apostas serem bastante anteriores ao ano da exposição, podemos deduzir que os trabalhos apresentados no certame fossem da autoria de antigos alunos.

Num artigo dedicado ao artista, no qual traça um breve perfil, acentuando as suas capacidades artísticas e a nobreza do seu caracter, o oficial do Exército, crítico de arte e aguarelista Ribeiro Artur (1851-1910) relata que nos anos oitenta Roque Gameiro frequentava aulas nocturnas na Escola de Belas-Artes, onde ele próprio o encontrou: “Quando, de 1881 a 1882, frequentava aulas nocturnas de desenho na Escola de Belas-Artes, dirigidas pelo estatuário Simões d'Almeida, encontrei muitas vezes ali um rapaz que se dedicava assiduamente ao estudo, com dezoito annos apenas.8

Para além da aprendizagem artística, o pintor continua a consagrar-se ao trabalho de litografia nas oficinas da Companhia Nacional Editora, propriedade do irmão. Contudo, durante algum tempo sai do país, como bolseiro. Na sequência da política de ensino seguida por António Augusto de Aguiar, que visava o desenvolvimento do ensino técnico, foram instituídas bolsas, a fim de que alguns estudantes mais dotados pudessem beneficiar de um estágio fora de Portugal. Roque Gameiro foi um dos contemplados e, durante quase três anos, frequentou, em Leipzig, a Escola de Artes e Ofícios. De regresso da Alemanha voltou às mesmas oficinas litográficas, desenvolvendo aí uma notável actividade, não só mercê dos conhecimentos adquiridos no estrangeiro, mas, essencialmente, devido às suas excepcionais capacidades artísticas e profissionais que o levaram a inovar nessa área.

Na Alemanha, integrado numa sociedade muito diferente daquela a que estava habituado, interessa-o o nacionalismo marcante de um pós-romantismo tardio, talvez por essa vertente corresponder a modos de pensar e de sentir que se coadunavam com as tendências inerentes ao seu carácter. Os valores nacionais, o amor ao que é intrínseco à terra, à tradição de um país, foram princípios básicos que nortearam o seu comportamento. Fez da honestidade, da simplicidade e da naturalidade regras básicas da sua vida. Essa estadia aumentou, possivelmente, no pintor o gosto pela disciplina e pela ordem, convicções que, aliás, já lhe eram próprias.

Tanto a imprensa contemporânea, como aqueles que, posteriormente, se debruçaram sobre a sua vida e obra, sublinham a rectidão do seu carácter, elogiando, em simultâneo, as suas aptidões como pintor: “Este nosso artista dos que mais honram as bellas-artes portuguezas pelo seu talento, estudo e modéstia9; “Não engana aquella bela cabeça, nem nos atraiçoa aquelle olhar firme, illuminado pela centelha do talento! Edificante exemplo de amor pelo ideal, de tenacidade no trabalho....10; “A sua arte é a verdade. Sob o seu pincel surgem a paisagem e as figuras dos seus valiosos trabalhos, velhos usos e costumes portugueses”11; “É um mestre, um consagrado. Todos lhe conhecem o temperamento, a técnica impecável, a tendência irresistível para colher os motivos na vida, palpitantes e cheios de verdade”.12

Poder-se-iam transcrever muitas outras opiniões; todas elas têm um denominador comum - enaltecem o homem e o artista. Na verdade, um é o reflexo do outro e ambos consubstanciam a dimensão de uma marcante personalidade.

Pouco tempo após o seu regresso a Portugal, Roque Gameiro conheceu Maria da Assunção Carvalho com quem casou em 1888. Desse enlace nasceram cinco filhos - Raquel, Manuel, Helena, Rui e Maria Emília (Mámia, como ficou conhecida). As duas filhas mais velhas herdaram o gosto do pai pela modalidade da aguarela, tendo-se notabilizado como excelentes desenhadoras e pintoras. Manuel seguiu idêntico percurso durante algum tempo, mas, mais tarde, optou por uma outra via profissional. Rui era um promissor escultor; no entanto, a sua existência foi muito breve e não teve oportunidade de produzir uma vasta obra. Mámia. também dotada, de grande talento, foi a única dos filhos do mestre aguarelista que se expressou, plasticamente, através da pintura a óleo.

O mestre aguarelista dedicava-se intensamente à família, dando aos filhos uma educação que os direccionou para a arte. Muitas vezes, em grupo, saiam para o campo ou para a zona litoral para poderem recolher elementos ao vivo, já que, para o artista, a pintura tinha de ser colhida do natural.

Em 1895, vivia em Lisboa, na Rua de Santana à Lapa, mas, talvez impulsionado pelo seu amor à vida campestre, saiu da capital e foi viver para a Amadora (antiga Venteira), na altura, um arrabalde campesino que permitia desfrutar de largos horizontes. Numa certa ocasião, tendo visitado um amigo, Tomaz de Melo, que tinha construído uma vivenda nessa zona da região saloia, ficou encantado com o aspecto do local de onde se avistava um esplêndido panorama, acabando por comprar um terreno adjacente. O projecto inicial da moradia data aproximadamente de 1898 e é da autoria do artista; numa segunda fase, o arquitecto Raul Lino, o amigo de longa data, projectou uma ampliação da casa, por volta de l900.

Cerca de 1926, regressa novamente a Lisboa e compra uma ampla habitação em Campolide, onde ainda hoje vivem alguns dos seus descendentes.

Ao longo da sua vida, Roque Gameiro produziu um elevado número de aguarelas, participando em várias mostras de arte. Para além da menção do seu nome no catalogo atrás referido, ele figura também em 1884, na décima terceira exposição da Sociedade Promotora de Belas-Artes, embora, nessa altura, estivesse em Leipzig. De 1891 a 1898, o artista participou em todas as exposições organizadas pelo Grémio Artístico e, a partir de 1901, em muitos dos certames organizados pela Sociedade Nacional de Belas-Artes, tendo-lhe sido concedidas várias medalhas ao longo desses anos. O pintor projecta também o seu nome além-fronteiras: em 1900 faz parte no núcleo de artistas nacionais que concorreram à Exposição Universal de Paris, onde obtém uma “menção honrosa”; em 1920 desloca-se ao Brasil acompanhado de sua filha Helena, tendo-lhe sido tecidos os maiores elogios; em 1923 participa no colectivo de aguarelistas portugueses, em Madrid, que obteve grande sucesso.

Entretanto inaugurou, em 1911, um atelier na Rua D. Pedro V onde, tanto ele como as filhas, apresentaram grande número de trabalhos. Esse acontecimento foi largamente noticiado pelos jornais. Aliás, a imprensa deu sempre grande cobertura aos eventos em que figurasse o nome do aguarelista. Tanto o seu talento de pintor como as suas notáveis qualidades humanas foram objecto de inúmeras crónicas ou de simples notícias que tinham em comum um tom encomiástico.

 

Temáticas

 

As Marinhas

De uma vocação nunca concretizada pela vida de marinheiro, que lhe ficara da juventude, permaneceu em Roque Gameiro o apelo do mar. É provável que tal predisposição esteja na origem do elevado número de marinhas que pintou ao longo da sua carreira artística.

De entre algumas das notas evocativas que Mámia Martins Barata escreveu sobre a vida do pai, encontra-se breve referência a essa atracção profunda. Comentando alguns factos passados, relembra que este “queria ver o nascer e o pôr-do-sol, queria sentir o barulho do mar” e, sobretudo, que “ninguém pintou o mar como ele”.13 O pintor acampava frequentemente na praia para melhor poder estudar o movimento das ondas, a mutação constante das águas, provocada pelo efeito dos ventos e das marés.

Ele transmitiu, de forma inigualável, imagens da ondulação de águas revoltas ou calmas, de cambiantes que percorrem toda uma gama cromática de verdes e de azuis, numa envolvência de atmosferas luminosas. Contudo, não é só o mar que constitui motivo plástico das aguarelas subordinadas a esta temática; se, na verdade, em algumas das suas composições estão representadas imagens de águas em movimento, em grande parte das suas marinhas o artista reproduz, conjuntamente, areais e rochedos de estrutura singular, nos quais as formas e as cores se conjugam num perfeito equilíbrio: “Grutas na Praia da Ursa; “Gruta da Praia da Ursa; Pedra da Papoa.

Por vezes, a praia surge representada como espaço de convívio social, ou então, como local de trabalho. Normalmente, nestes contextos, o seu olhar projecta-se sobre os diversos grupos de figuras que usufruem de momentos de lazer, ou que se ocupam da actividade piscatória, como os pescadores e as varinas que esperam o regresso da pesca “Nazaré, contudo não privilegia uma só pessoa.

 

O espaço urbano

Apesar de ter nascido e vivido os primeiros anos da sua vida numa zona rural, Roque Gameiro soube compreender e traduzir a riqueza da vida citadina que lhe foi dado contemplar. Perpassam nas aguarelas sobre essa temática cenas do quotidiano da cidade de Lisboa, sobretudo dos bairros típicos, tendo o artista captado gestos e atitudes dos seus habitantes, na faina do dia-a-dia. A essas figuras que povoam os bairros de Alfama e da Mouraria, juntam-se todos aqueles que vinham da região saloia - as lavadeiras, os vendedores com os seus burros carregados de hortaliça, as leiteiras. É, enfim, a Lisboa popular que se acotovela pelas estreitas ruas e, pelos gestos que muitos deles esboçam, pressentem-se os clamores dos pregões.

O enlevo do colorista transparece em qualquer das aguarelas que executou sobre a capital, quer naquelas em que aponta a configuração de becos e ruas estreitinhas, de vielas tortuosas mas, igualmente, em outras imagens que focalizam fachadas de igrejas, arquitectura de belos edifícios, ou, então, espaços que há muito desapareceram.

A fim de que possamos compreender, cabalmente, as motivações que levaram o artista a pintar Lisboa do modo como o fez, e compreender o seu amor à cidade onde viveu, conviria folhear a obra que ele próprio editou “Lisboa Velha, e ler as notas explicativas que escreveu. Aperceber-nos-emos do amor que ressalta das imagens que captou, do esforço feito para fazer perdurar a memória de certos locais da cidade que foram sendo adulterados ou suprimidos por uma urbanização cada vez mais devastadora. Esta obra constitui um verdadeiro documento de uma época e de modos de ser das pessoas que a passagem do tempo há muito envolveu na poeira do esquecimento.

Relembremos algumas das aguarelas coligidas nesse álbum: “Beco dos Cortumes, “Rua do Arco do Marquês do Alegrete”, “Rua de S. Pedro ao Largo do Chafariz de Dentro”, “Rua do Benformoso”, “Rua de S. Miguel, em Alfama. Em todas elas podemos relembrar aspectos e tipos humanos de uma “Lisboa de outras eras”.

 

O Mundo rural

O aguarelista procedeu a uma atenta observação do espaço rural, que captou, iconograficamente, em múltiplas variantes. Do seu pincel saiu um infindável registo de paisagens dos nossos campos, de ruas de antigas aldeias, de rios de margens densamente arborizadas, de camponeses entregues às suas tarefas habituais.

A sensibilidade do artista encontrou motivação em vários contextos paisagísticos e humanos da Beira Alta, circunstância que se traduziu num considerável número de aguarelas cujos temas vão desde a perspectivação de casas típicas, com frequência edificadas sobre maciças estruturas rochosas, de agrestes paisagens serranas, de margens alcantiladas de rios, a estreitas ruelas ladeadas de velhas habitações, captando, em simultâneo, pequenos flagrantes do quotidiano dos habitantes dessas localidades. Nada escapou à acuidade do olhar do aguarelista que soube, com extraordinário virtuosismo, transmitir os específicos ambientes dos espaços mencionados.

As aguarelas denominadas “Avô”, ilustram, expressivamente, o interesse que despertaram no artista, a paisagem e as vivências dessa região do interior do país.

Muitos outros registos de imagens atestam, igualmente, a passagem de Roque Gameiro pelo norte, nomeadamente o Douro e o Minho.

Além destes espaços, a região saloia e a zona do Oeste foram reiteradamente reproduzidas. Ele soube traduzir, de forma inigualável, a beleza dos campos e a magia do litoral onde o amarelo das areias contrasta com as bizarras formas dos rochedos escarpados. O artista sentiu, igualmente, interesse pela actividade das pessoas, pelas casas de rústica arquitectura que figuram em muitos dos seus quadros.

 

A Figura humana

A figura humana constitui um elemento de relevo no universo imagético do aguarelista. Por vezes, anonimamente inserida na paisagem, animiza-a e, pelos movimentos que implicitamente executa, deslocando-se ou trabalhando, atenua o estatismo inerente ao espaço natural.

Roque Gameiro privilegia a imagem feminina que surge reiteradamente nas suas aguarelas - Umas vezes apresenta-a isolada “Casa Rústica em Minde”, Em Almoçageme”, outras, observada em grupo, trabalhando, ou em momentos de convívio.

Tal como já foi referido, ele percorreu diversas zonas do país e, em todas elas, encontrou motivos que transformou em belíssimas aguarelas. Daí que tenha reproduzido figuras de mulher em variadíssimos contextos: rurais, citadinos, ou, então, relativos à beira-mar – “Nazaré”.

Dependendo do posicionamento do pintor face ao eventual modelo, este é referenciado como uma silhueta difusa, de traços mais ou menos fluidos, ou então, delineado mais pormenorizadamente, de feições de delicado modelado e de graciosas formas corporais “Casa Rústica em Minde”, “Em Almoçageme”, “Aguarela para ilustração de As Pupilas do Senhor Reitor”.

Objecto de menor focalização, a figura masculina não poderia deixar de integrar a vasta galeria de tipos humanos reproduzidos pelo mestre aguarelista. O homem é igualmente observado em plena actividade laboral, ou, simplesmente, descansando – “Interior da Fortaleza das Berlengas”, surge, também, acompanhando a mulher.

Nas aguarelas de temática urbana as personagens perspectivadas revestem-se de primordial importância visto que é através delas que o artista sugere a agitação da vida citadina e faz perpassar a vida intensa dos bairros populares.

A imagem feminina, isolada, constitui assunto de uma notável série de aguarelas de pequeno formato. É provável que estes singelos estudos, alguns incompletos, nos quais foram delineadas figuras em diversas posições e atitudes, apresentando a mulher em diversificados períodos da vida, tivessem resultado das pesquisas que o pintor efectuou, visando a reconstituição de trajes antigos. Num elevado número desses trabalhos foram delineadas personagens dos romances em cuja ilustração colaborou; constituem, portanto, esboços preliminares nos quais o artista adequava a sua visão pessoal dessas personagens, ao sentido das sequências do texto, integrando-as nos espaços referidos pelo autor.

Atente-se nas aguarelas designadas sob o título: “Estudo para o Vira”, “Estudo de Mulher de Ovar”, “A Moda que Passa”, “Xaile Antigo – Estudo”, “Tricana. Em princípio, o primeiro estudo assinalado, deve ter constituído um dos vários esboços que o aguarelista executou para representar a personagem Clara, do romance de Júlio Dinis “As Pupilas do Senhor Reitor”.

 

O retrato

Além de dominar com mestria a técnica da aguarela e a do desenho, como se tem vindo a afirmar, Alfredo Roque Gameiro foi um exímio fisionomista. No vasto acervo das suas obras inclui-se um elevado número de retratos que, ao longo dos anos, têm vindo a provocar a admiração quer dos críticos de arte, quer do público em geral.

Ele não se limitou a pintar aguarelas de pequeno formato, mas executou, igualmente, quadros de grandes dimensões, como o de sua mãe, obra extraordinária, pintada em 1904, e que foi premiada com uma medalha de ouro. De igual modo, o retrato da filha Raquel, da mesma época, fascina não só pelo modelado das feições, pela expressividade do olhar, como também pelo tratamento cromático, formulando as texturas dos variados tecidos. Na representação do vestido da jovem modelo, os “degrades” da cor verde sugerem os diferentes cambiantes do veludo, cuja tonalidade se acentua ou se desvanece em função da incidência da luz. O largo cabeção de renda vem amenizar a larga mancha verde, estabelecendo um contraste de belos efeitos plásticos.

Foram várias as personalidades da época retratadas pelo artista e, em todos os estes seus trabalhos, ele capta não só o pormenor físico, como leva o eventual observador a intuir algo da psicologia da pessoa que lhe serviu de modelo.

No seu auto-retrato somos imediatamente atraídos pela acuidade de um olhar azul que, parecendo abolir a barreira entre a aparência do real permitida pela criação plástica, e a própria realidade, como que comunica com quem contempla a sua imagem.

Trata-se de trabalhos de grande qualidade artística, e o mérito do pintor é tanto maior, quanto se torna difícil, através da aguarela, traduzir com naturalidade expressões fisionómicas e posturas corporais. Além disso, face à recusa de se servir da fotografias como processo auxiliar, Roque Gameiro pintava do natural, lendo apenas como recurso as suas elevadas capacidades de observação e de compreensão humana além do seu invulgar talento de desenhador e de aguarelista.

Ao contemplarmos estes retratos adquirimos a convicção de que se justifica cabalmente o renome que o artista alcançou na sua época, que se estendeu até aos nossos dias e que se perpetuará enquanto houver pessoas que admirem os valores do nosso passado artístico e este processo de criação plástica.

Ainda que seja um lugar-comum referir as extraordinárias qualidades artísticas de Roque Gameiro no domínio da aguarela e, muito especificamente, na execução do retrato, pouco se alude aos desenhos que ele fez a grafite, nos quais reproduz a efígie humana.

Uma das vantagens do desenho monocromático é a de revelar o pormenor do traço que não pode ser valorizado pela aplicação cromática que, com frequência, permite corrigir algumas imperfeições do traçado original. Neste caso, o artista tem de saber transmitir, por simples linhas e avolumar, pelo processo de criar zonas de luz e de sombra, através de alternâncias de claro-escuro, as feições da pessoa retratada e as respectivas formas corporais, assim como traduzir o modelado das roupagens.

O Homem do Capote constitui um exemplo flagrante das excepcionais capacidades de Roque Gameiro para o desenho. Ele completa-se como desenhador e como aguarelista.

 

A Ilustração

Pela importância de que se revestiu no âmbito do espólio do grande aguarelista a sua actividade como ilustrador, impõe-se que mencionemos algumas das obras nas quais participou iconograficamente.

O pintor executou uma variada e numerosa colecção de aguarelas que se destinaram a uma vasta gama de publicações que vai desde livros de carácter histórico e etnográfico, a romances de conceituados escritores.

Roque Gameiro inicia esta sua actividade em 1888, pintando algumas aguarelas que foram publicadas no “Álbum de Costumes Portugueses. Além de Roque Gameiro figuram aí nomes ilustres da pintura nacional, como os de Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Condeixa, entre outros.

Em 1900, com o aguarelista Manuel de Macedo, ilustrou uma edição de luxo de “Os Lusíadas”. Ainda na mesma data, ocupou-se da direcção artística da “Historia das Toiradas, da autoria de Eduardo de Noronha, que saiu a público na mesma data.

As obras de maior importância histórica “Quadros da História de Portugal, com texto da autoria de Chagas Franco e João Soares, e “História da Colonização Portuguesa do Brasil, sob a direcção e coordenação literária de Carlos Malheiro Dias, são respectivamente de 1917 e 1924.

Embora os “Quadros da História de Portugal constituam uma obra estruturada em função de uma evolução diacrónica, os autores do texto fizeram, apenas, uma selecção de episódios históricos que, provavelmente, consideraram de interesse mais relevante.

Para a ilustração destes dois últimos trabalhos mencionados que, na época obtiveram grande êxito, Roque Gameiro executou uma vasta colecção de aguarelas que, indiscutivelmente, contribuíram para o sucesso alcançado.

Esta investigação resultou de estudos aprofundados do pintor que visavam uma reconstituição histórica, tanto quanto possível fidedigna às épocas relatadas no texto, mesmo as mais recuadas no tempo. O artista revelou, mais uma vez, a sua preocupação em reconstituir a verdade dos factos, patente no modo como reconstituiu, imageticamente, as cenas de batalhas, as primitivas máquinas de guerra medievais, o vestuário e interiores da época, as embarcações de finais do século XV, a riqueza arquitectónica dos monumentos. Nas cenas em que surgem personagens, visualizadas individualmente ou em conjunto, em movimentadas cenas bélicas, o aguarelista delineou-as de modo a permitir ao leitor interpretar sentimentos e compreender os respectivos comportamentos, através das expressões faciais e dos gestos esboçados, sobretudo no caso de as figuras serem referenciadas em primeiro plano.

Este livro representa, pois, uma lição de história em que as imagens de elevada qualidade artística e o texto se encontram em perfeita sintonia.

Em 1924, Roque Gameiro dá ainda a sua colaboração à “História do Palácio de Queluz, de Afonso de Orneias.

Mas a sua verdadeira criatividade expande-se, sobretudo, nas obras de ficção que ilustrou. O artista estuda os romances ou contos a ilustrar, interpretando o sentido da mensagem do autor. Tenta, ainda, localizar e estudar o espaço onde decorre a acção, a fim de poder melhor adequar a imagem às descrições paisagísticas, tendo em conta as características reais desses lugares. Deste modo cria uma simbiose perfeita na relação texto/imagem. E as personagens, pelo modo como o artista as concebeu e delineou, integram-se na acção, adquirem dinamismo e vida própria, exteriorizando sentimentos e emoções.

Podemos considerar que o aguarelista descreve através da representação visual, aliando a vertente estética à literária. E a quem for permitido ler as edições das obras ilustradas por Roque Gameiro pode, assim, melhor penetrar no universo de ficção do autor.

A ilustração dos romances de Júlio Dinis “As Pupilas do Senhor Reitor e “A Morgadinha dos Canaviais” obedece, cabalmente, a estes parâmetros que resultam de uma pesquisa demorada e conscienciosa.

A primeira obra foi ilustrada entre 1904 e 1905, gerando, até, uma polémica nos jornais, devido ao facto de Roque Gameiro não concordar com a localização espacial que, normalmente, lhe é atribuída. Num artigo do Diário de Notícias, o pintor contesta que a acção do romance tenha decorrido em Ovar e apresenta dados incontroversos, alegando que Júlio Dinis estabelecera esse local em Santo Tirso. Diz a determinada altura da sua alegação; “Há muitos anos, ao tomar o pesado encargo de evocar, graficamente, a célebre obra, lidas e relidas as suas belas páginas, não consegui obter uma informação exacta daquela Crónica de aldeia (..,). Convencido de que o fundo do cenário não podia ser Ovar (...), palmilhei, de recanto a recanto, o norte todo. Encontrei em Santo Tirso - onde Júlio Dinis também esteve várias vezes e onde residiu demoradamente, a paisagem que se ajustava, com uma realidade de entusiasmar, às descrições do romance (...). Instalei-me então ali e fiz viver a soberba anedocta rural nesse maravilhoso ambiente. Trajos e tipos evoquei-os, dando côr e interesse, como me foi possível às cenas rústicas (...). Como ilustrador tive que deixar de parte qualquer outra atitude que não fosse assente nas fontes de informação e na minha natural inspiração.14

Outros romances e contos foram igualmente ilustrados por Roque Gameiro, entre eles, “A Sereia de Camilo Castelo Branco (1901), “O Romance das Ilhas Encantadas” da autoria de Jaime Cortesão (1920).

Entre as inúmeras aguarelas pintadas por Roque Gameiro e destinadas à ilustração, integra-se uma série de imagens cuja temática se inspirava em costumes antigos do século XVIII e de inícios da centúria seguinte. Tratava-se de uma curiosa reconstituição de trajes e de modos de vida desse período, incidindo sobre festividades populares, formas de convívio, ou, mesmo, trabalhos campestres. O objectivo deste trabalho era recriar, pela imagem, vivências de outras eras e fazê-las reviver ou dá-las a conhecer aos seus contemporâneos.

Para que possamos compreender a razão que levou o grande aguarelista a lançar-se numa pesquisa tão complexa e demorada, convém relembrar o que ficou dito acerca do apego que ele tinha à tradição e aos valores do passado. Durante longos anos entregou-se a esta meritória tarefa que, a ter sido plenamente concretizada, teria tido, na sua época e, mesmo no presente, um valor artístico e etnográfico bem significativo. Infelizmente, se o artista pintou um elevado número de aguarelas, nunca chegou a realizar, plenamente, o sonho de as ver editadas numa obra; e, se se conhece o paradeiro de algumas dessas imagens, muitas outras desapareceram.

Na altura, o projecto foi largamente divulgado pela imprensa, particularmente pelo Diário de Notícias, pelo Ocidente e pela Vida Artística. O próprio pintor em algumas entrevistas concedidas a jornalistas mencionou a colecção de quadros que executara, colecção que esteve exposta nas Belas-Artes.

A investigação efectuada que levou Roque Gameiro ao norte do país, onde consultou velhos alfarrábios em arquivos e em bibliotecas, decorreu, aproximadamente, entre 1904 e 1916. O artista chegou, mesmo, a contactar pessoas bastante idosas que guardassem as memórias de um passado, ainda, relativamente recente, a fim de recolher mais alguns dos elementos necessários à prossecução do trabalho que idealizara. Porém, apesar de tão intenso esforço desenvolvido, tal projecto não chegou a concretizar-se e essa notável série de imagens não passou à posteridade compilada num livro.

Em 1931 surgiram os primeiros fascículos de um volume subordinado ao título “Portugal de Algum Dia, com texto de Gonçalo de Matos Sequeira e imagens de Roque Gameiro. Tinha como subtítulo “Cenas e Costumes de Outro Tempo. Em princípio, parece tratar-se de mais uma tentativa do artista em dar seguimento ao trabalho projectado há vários anos atrás. Contudo, mais uma vez, ele viu gorada essa diligência, dado que somente os três primeiros capítulos vieram a público, apesar de o índice incluir um plano bastante alargado sobre esta temática.

Se Roque Gameiro nunca chegou a consubstanciar numa obra esse seu intento de apresentar as imagens representando velhos costumes tradicionais e que lhe custou tão demorada e intensa pesquisa, ao menos não se perderam as aguarelas que foi pintando sobre Lisboa e que coligiu num álbum que intitulou “Lisboa Velha. Trata-se de uma edição do autor, com prefácio de António Lopes Vieira.

Na sucinta mas elucidativa nota de abertura, o pintor sintetiza a génese da obra e lamenta que muitos dos espaços por ele pintados tenham desaparecido ou sido alterados. Diz a uma certa altura da sua exposição: “...Uma natural e saudosa atracção pelas coisas do passado, levaram-me desde há trinta anos, a pintar em aguarelas, a desenhar e a documentar graficamente conforme pude e soube, todos os pormenores que pouco a pouco iam desaparecendo da fisionomia da cidade, tarefa onde pus o melhor dos meus esforços e o carinho muito verdadeiro que consagro às coisas da minha terra. Esta tarefa é este livro e eu não sei dizer melhor das minhas intenções”.13

Através destas singelas linhas o artista deixa transparecer uma certa nota de melancolia; ele tão apegado aos valores da tradição e que tanto ama o que é genuinamente nacional, pressente quanto as transformações que Lisboa foi sofrendo lhe alterariam a fisionomia e que alguns dos velhos costumes tão típicos seriam irremediavelmente abolidos.

 

Conclusão

Alfredo Roque Gameiro transpôs os limites do tempo e permaneceu vivo na obra que criou e não somente na memória colectiva. Bastará saber “ver” e descodificar o legado que nos deixou, mensagem que não se traduziu por palavras. Ao contemplarmos as suas aguarelas, tacitamente, convivemos com o homem célebre que, apenas, fisicamente, deixou de estar entre nós.

Ele continua presente nas expressivas imagens dos campos verdejantes, dos rios de águas límpidas e claras, dos imensos areais, das ondas de múltiplos cambiantes e que neles se vêm espraiar, dos enormes rochedos de formas caprichosas e de surpreendentes combinações cromáticas, dos largos horizontes que a vastidão do mar tornou mais profundos, cenários onde, por vezes, se inscreve a figura humana.

Em todos estes quadros captados directamente da natureza, perpassa a visão do artista que foi capaz de recriar efeitos de especial luminosidade, de contrastar luz e sombra em amenas transparências; sente-se pulsar nesse universo o seu espírito de delicada sensibilidade e que se expressou pelo intenso poder evocativo da sua pintura.

 

 

1 LUCENA, Armando de, “Roque Gameiro. Mestre Insigne da Aguarela”, Revista Panorama. 4ª Série. Nº. 10, Junho de 1964, pp 3-6.

2 Diário Ilustrado, 27 de Março de 1895.

3 NOTA: Foi respeitada a grafia da época em todas as transcrições feitas.

4 Ilustraçâo portuguesa, 1914.

5 ARAÚJO, Norberto de, O Mundo, “Um Artista bem Português - Uma tarde em casa de Roque Gameiro”. Lisboa, 4 de Janeiro de 1916.

6 GAMEIR0, Alfredo Roque, Lisboa Velha, “Explicação”. Tipografia da Empresa do Anuário Comercial, edição do autor. Lisboa, 1925. pág. 7.

7 Notas evocativas da filha mais nova do pintor

8 ARTHUR, Bartholomeu Sesinando Ribeiro. Arte e Artistas Contemporâneos. “Perfis”, texto de 1897, 2a. Série, Livraria Férin, 1898, pp 11-12.

9 O TIRO CIVIL, 15 de Novembro de 1899.

10  PEIXOTO, Augusto. Ecos da Avenida. 5 de Junho de 1898.

11 A ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA, 1914.

12 O SÉCULO. 10 de Novembro de 1911.

13 Notas evocativas da filha mais nova do pintor, Mámia Roque Gameiro Martins Barata.

14 Diário de Noticias, “Roque Gameiro responde às observações que lhe fizeram a propósito do local onde decorreu a acção das Pupilas do senhor Reitor”.

15 GAMEIRO, Roque, Lisboa Velha, “Explicação”, Tipografia da Empresa do Anuário Comercial, edição do autor, Lisboa, 1925. pág. 7.

 

 

 

 

 Fernando de Pamplona   

in DICIONÁRIO DE PINTORES E ESCULTORES   

Portugueses ou que trabalharam em Portugal, Vol. IV   

2ª Edição (actualizada) - Livraria Civilização Editora   

 

            ALFREDO ROQUE GAMEIRO  – Grande pintor aguarelista contemporâneo (1864-1935), discípulo de Manuel de Macedo, de Henrique Casanova, de Niepper e da Escola de Artes e Ofícios de Leipzig, que foi frequentar em 1893 como pensionista do Estado. Pode dizer-se que foi ele entre nós quem deu à aguarela pergaminhos de nobreza, criando uma verdadeira tradição. O que, neste domínio, havia antes dele quase não conta: o que de bom se fez depois dele muito deve ao seu mestrado. De técnica poderosa, de extraordinária acuidade visual, que lhe permitia captar os segredos das coisas e dos seres, de sentimento privilegiado da forma e da cor, Roque Gameiro deixou uma obra admirável, que pede meças às dos melhores aguarelistas europeus da sua época.

Foi sobretudo como intérprete do mar português, dos trechos da nossa costa alcantilada e arenosa, onde as águas rebentam com fragor ou vêm morrer numa carícia lenta, que Roque Gameiro se notabilizou, mostrando a magia da sua visão lírica e forte ao mesmo tempo, bem como o seu poder plástico, feito de segurança e de finura conjugadas. A transparência das águas marinhas, o seu movimento vivo, ondulante e caprichoso, a sua gama cromática tão rica e fugitiva, as rochas imensas, ciclópicas, de reflexos irisados sob a carícia do sol – tudo toma relevo e cor nas aguarelas de Roque Gameiro, enriquecido e transfigurado pela paleta do artista.

Lembremos, por exemplo, algumas das suas mais belas marinhas, reunidas em boa hora na Exposição Retrospectiva de 1946: «Mar» (1916), de tons verdes e tons de aço, em que se surpreende o rugir da onda leonina; «Praia da Adraga» (1916), obra magnífica de sensibilidade e grandeza, erguendo-se do lirismo à epopeia; «Gruta marinha» (1917), sob cujos penedos pesados e escuros as águas se agitam num longo marulhar; «Fortaleza das Berlengas» (1924), de águas movediças e translúcidas, franjadas de espuma e tão ricas de cambiantes, que vão do azul-ferrete ao verde-glauco, a envolver a mole de pedra acastanhada do castelo marinho; «Forte da Nazaré» (1924), contraste soberbo entre o grande bloco de rocha e as formas serpentinas, fugidias, das vagas de tons variegados; «Praia do Cavalo» (1916), de areia alagada pelo espraiar das ondas e de rochas refulgentes sob os dardos da luz solar; «Foz - Nazaré» (1923), de águas azuis de turquesa junto do areal pálido; «Mar depois da chuva», de vagas inquietas multicores, com fulgor de pedrarias em sua transparência luminosa, a alongarem-se na praia, junto de enormes rochedos de tons barrentos; ou ainda essa admirável «Cova do Sono» (Berlengas, 1924), em que, na meia-luz da gruta marinha de tons castanhos e esverdeados, as águas se tingem dum azul profundo. Obras singulares estas, de segurança e largueza de aguada só comparáveis à sua leveza e limpidez.

Também na paisagem rústica Roque Gameiro mostrou a pujança dos seus dons interpretativos, fixando de maneira saborosa o colorido e o encanto dos nossos rincões sertanejos, como os aspectos deliciosos de bucolismo de aldeia de Avô, no coração das Beiras. Uma das suas glórias está em haver sido o intérprete inigualável da velha Lisboa das ruelas tortuosas, dos becos, das escadinhas, dos arcos e dos fontenários, e também dos trechos de arquitectura senhorial, das casas nobres e palácios patinados pelo tempo. Recantos cheios de pitoresco e poesia, trechos de casario de beirais arrebicados e varandas floridas, dispostos em cascata no dorso branco das colinas, surgem-nos ricos de expressão em seu mosaico de tintas róseas, amarelas ou vermelhas, comidas pelo sol ou desbotadas pelas invernias. Que esquisita graça e que vincado carácter o artista soube desencantar nos mil e um aspectos da Lisboa antiga, que vai desaparecendo dia a dia sob o camartelo do progresso! Algumas reconstituições de antanho, sobretudo da época áurea dos Descobrimentos, com galeões e caravelas fulgurantes de cor, como «Chegada das naus» ou «Lisboa no século XVI», têm poder de evocação em seu jeito ilustrativo.

Também Roque Gameiro se impôs como retratista de processo simples, mas directo e penetrante. A sua obra-prima, neste domínio, é o «Retrato da Mãe do Artista» (1904), admirável de sentimento interpretativo e prodigioso de feitura no vigor das formas e na soberba marcação dos volumes, mau-grado a pobreza da matéria de que se serviu.

Como ilustrador, atingiu grande relevo. De colaboração com o seu mestre dos verdes anos, Manuel de Macedo, executou as aguarelas originais para ilustrar a grande edição das obras completas de Almeida Garrett, surgida em 1904; também de parceria com Macedo fez as ilustrações para a edição monumental de «Os Lusíadas», publicada em 1900 pela Empresa da História de Portugal. Desenhou alguns retratos de Camões. Ilustrou de maneira saborosa e colorida a edição monumental de «As Pupilas do Senhor Reitor», de Júlio Dinis. Ele e Alberto de Sousa foram os colaboradores artísticos dos «Quadros da História de Portugal» coordenados por Chagas Franco e João Soares. Gameiro ilustrou ainda a «Colonização Portuguesa no Brasil» e bem assim muitas outras obras de categoria. Também se distinguiu como litógrafo.

Dele escreveu o grande poeta Afonso Lopes Vieira, seu irmão na sensibilidade, no prefácio do álbum «Lisboa Velha», em que se reúnem as melhores aguarelas deste mestre sobre os aspectos típicos da cidade do Tejo: «... pertence à escola dos artistas caminheiros, os quais elegem para oficina de trabalho os campos e as praias, os vales e os montes, se embebem de luz e de ar livre, se encantam com a cor e a linha dos seus aspectos e com o carácter das gentes que os povoam. Sempre vestido de briche nacional, rude estofo tão azado para as calmas do verão como para os frios do inverno, este homem, moço de espírito, achou o segredo da perpétua juventude no enternecimento com que jamais se cansa de colher as fisionomias doces, severas ou amplas da Grei. Para guardar-lhe os traços suaves ou grandiosos, tem subido as serras ásperas e tem desenhado ao ritmo das vagas, a bordo de batéis de pescadores... E, deste modo, trespassado de lusitanismo, Roque Gameiro tem produzido, com tão exemplar seriedade e tão adestrado talento, o que se me afigura um vasto «Livro de Horas» português. Creio, em verdade, que este mestre descende dos nossos admiráveis iluminadores dos séculos XV e XVI, os quais nos legaram terníssimas páginas, tão sentidas nas atmosferas, nas árvores e nas personagens, que ainda agora as reconhecemos por bem nossas, desta terra e desta alma».

Diga-se ainda que Roque Gameiro se não contentou em nos deixar um punhado de obras-primas: legou-nos também, em seus filhos e discípulos, um punhado de artistas, que lhe continuaram e honraram o nome – Raquel, Helena, Ruy, Màmía.

Desde que obteve, em 1891, na 1ª Exposição do Grémio Artístico, uma 3ª medalha, o grande mestre aguarelista não cessou de coleccionar triunfos: 1ª medalha em aguarela e em desenho no Grémio Artístico (1897-1898); medalha de honra na Sociedade Nacional de Belas-Artes (1910); medalha de ouro do Salon de Paris (1900); grand prix, na Exposição Internacional do Rio de Janeiro (1908); medalha de honra de 1ª classe na Exposição Internacional de Barcelona (1924); grande prémio na Exposição Internacional Comemorativa da Independência do Brasil. Em 1923, foi eleito membro da Real Academia de Belas-Artes de S. Fernando, de Madrid – distinção raras vezes concedida a artistas portugueses.

Obras principais em:

Museu Nacional de Arte Contemporânea, («Praia das Maçãs», «Provando o jantar», «Nazaré» e «Castelo de S. Julião»);

Museu da Cidade de Lisboa («Rua do Arco do Marquês de Alegrete-Lisboa»);

Museu de Arte Contemporânea, de Madrid («Ribeira da Praia das Maçãs»);

Museu Regional Grão Vasco, de Viseu («Arribas do Mar»);

Biblioteca-Museu Almeida Moreira, de Viseu (um quadro de figura);

Col. Família do Artista («Retrato da Mãe do Artista», «Retrato da Mulher do Artista», «Praia da Adraga», «Bailarico saloio», «Saloio de Colares», etc.);

Casa-Museu dos Patudos, Alpiarça (algumas aguarelas);

Col. D. Isabel Gorjão de Almeida («Gruta marinha» e «Estudo de mar»);

Col. Prof. Francisco Gentil («S. Julião-Ericeira», «Coimbra», 1915, «Coimbra», 1917, e «Mar-Ericeira»);

Col. Pedro Rodrigues Costa («Fortaleza das Berlengas» e «O Forte-Nazaré»);

Col. Horácio Costa («Entrada de Óbidos»);

Col. Dr. S. Gomes da Costa («Mar»);

Col. D. Maria da Graça Bleck da Silva («Praia da Adraga»);

Col. D. Maria José Bleck («Rampa sul da Ericeira»);

Col. Condessa de Sabrosa («Praia das Maçãs»);

Col. D. Hortense Reis («Arribas da Abitureira»);

Col. Carlos de Abreu Baptista («Arco da Praia da Adraga»);

Col. D. Maria Helena Ribeiro de Matos («Senhora do Porto – Carvoeira» , «Cruzeiro – Carvoeira» e «Mondego – Coimbra»);

Col. Dr. Caldeira Cabral («Rua de Óbidos»);

Col. Guilherme Ferreira Pinto Basto («O Facho – S. Martinho do Porto» e «S. Julião – Ericeira»);

Col. José Pinto Basto («0 Arco de Óbidos» e «Coimbra», 1917);

Col. António Pinto Basto («Jardim da Quinta da Fonteireira»);

Col. Frederico Sabrosa («Mindelo – Praia das Maçãs»);

Col. Álvaro Pedro de Sousa («Ferreira do Alentejo» e «Uma quelha em S. Romão»);

Col. Carlos Spratley («Forte de Peniche» e «Farilhão da Cova»);

Col. Carlos M. Esaiag («0 Açude Roto» e «A ciganita»);

Col. Dr. Clarimundo Guedes Emílio («Vale da Ronca – Azambuja», «Azambuja», «Vila Franca», «Choupal – Coimbra», «Foz – Nazaré» e «Mar – S. Martinho»);

Col. D. Ana Roque Gameiro Ottolini Castelo Branco («Em S. Pedrb do Sul»);

Col. D. Lily Sílvio Rebelo («Barco da Caparica»);

Col. D. Maria Delfina Guimarães Matos («Na Praia Grande»);

Col. Karl Andersen («Mar – Praia das Maçãs» - 2 aguarelas);

Col. D. Maria do Carmo França («Peixeira»);

Col. D. Guilhermina Monjardino (estudo para a «Rampa Histórica da Ericeira»);

Col. Dr. Pedro Monjardino («Uma rua em S. Pedro do Sul» e «Aldeia de Sabugueiro»);

Col. Dr. Amorim Ferreira («A Foz – Ericeira»);

Col. Prof. Fernando Emídio da Silva («Escadinhas dos Remédios – Lisboa», «Largo do Chafariz de Dentro – Lisboa», «Pátio na Rua do Castelo Picão – Lisboa» e «Praia do Peixe – Ericeira»);

Col. Herdeiros Dr. Afonso Lopes Vieira («Escadinhas de S. Miguel – Lisboa»);

Col. Frederico Nunes Teixeira («Rua das Farinhas – Lisboa»);

Col. D. Hebe Gomes («Portão de quinta – Óbidos»);

Col. D. Raquel Roque Gameiro Ottolini («Vale da Ronca»);

Col. D. Helena Roque Gameiro Leitão de Barros («Quinta do Conde – Colares»);

Col. J. Leitão de Barros («Vila Franca»);

Col. D. Mamia Roque Gameiro Martins Barata («Mar»);

Col. D. Marta Nórton («Mar depois da chuva»);

Col. D. Maria Raquel Bandeira de Melo Emílio («Nazaré»);

Col. Manuel Posser de Andrade («Volta do mercado»);

Col. D. Ana Schmidt («As ceifeiras»);

Col. Coronel Pereira Coelho («Galera das Lavadeiras» - estudo);

Col. José Alexandre Matos (várias aguarelas e 2 ilustrações);

Col. Dr. A. Ferreira (1 ilustração);

Col. Armando Fernandes Coelho («Areal e penedos – Praia da Rocha», 1918; «Areal e penedo furado – Praia da Rocha», 1918; e «Areal da praia», 1918);

Col. Dr. António Anastácio Gonçalves;

Col. Henrique Marques Júnior («Fonte da Presinha – Colares»);

Col. Rodrigo Faria de Castro («Lavadeiras no Mondego»).

 

Bibliografia:

 

Ribeiro Artur – «Arte e artistas contemporâneos»;

«Lisboa velha» – álbum com prefácio de Afonso Lopes Vieira;

Fernando de Pamplona – «Um Século de Pintura e Escultura em Portugal»; «Guia de Portugal»;

«Exposição retrospectiva da obra de Roque Gameiro» – catálogo com prefácio de Teresa Leitão de Barros, 1946;

Diogo de Macedo – «Sintra na pintura portuguesa do Século XIX»;

«Museu Regional Grão Vasco» (catálogo guia);

«Exposição da Colecção Garrettiana de Ferreira Lima» (catálogo, 1954);

«1ª Exposição de Arte Retrospectiva», 1880-1933 (catálogo, 1937);

«Exposição Retrospectiva Cinquentenária», 1901-1951 (catálogo, 1951);

B. Xavier Coutinho – «Camões e as artes plásticas» - II;

«Exposição no 50º aniversário da morte de Roque Gameiro na Galeria da Câmara Municipal da Amadora» (catálogo, Setembro 1985).

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C. da Silva Lopes  

Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura   

 

GAMEIRO (Alfredo Roque) — Pintor aguarelista port. (Porto de Mós, 4.4.I864 - Lisboa, 5.8.1935). Não lhe sendo possível seguir a carreira naval, empregou-se em Lisboa, como aprendiz, numa empresa litográfica. Familiarizado com a técnica do ofício — na qual viria, mais tarde, a introduzir inovações —, aos 23 anos abalançou-se a publicar, de colaboração com artistas de nome — Manuel de Macedo, Rafael Bordalo Pinheiro e Columbano —, uma série de Tipos Populares Portugueses. Em 1893 possuía já categoria artística bastante para ir, na qualidade de pensionista do Estado, frequentar a Esc. de Artes e Ofícios de Leipzig, a fim de estudar as mais recentes técnicas litográficas. Se, nesse campo, R. G. se notabilizou, foi como aguarelísta que desenvolveu os seus méritos até conquistar o lugar mais destacado. Foi o discípulo mais brilhante do pintor esp. E. Casanova, na aula de Aguarela que este dirigia e que era tb. frequentada por outros artistas, entre eles B. S. Ribeiro Artur, oficial do exército, que viria a distinguir-se numa vasta série de figurinos de antigos uniformes militares. Embora Casanova fosse um grande aguarelista, essa modalidade de pintura ainda não era devidamente apreciada em Portugal. Não faltava quem a relegasse para o sector do amadorismo artístico. Foi R. G. quem a guindou à categoria que já alcançara noutros países. Cedo a crítica o apontou como o primeiro aguarelista  port.  A diversidade de temas escolhidos — paisagens campestres, marinhas, cenas da vida lisboeta, retratos —, impunha-o como aguarelista de largos recursos técnicos, apto a vencer as maiores dificuldades. Singular talento revelou nas suas marinhas, representando com admirável colorido e profundo realismo as águas do oceano, os rochedos e os areais. Como poucos artistas, sentiu e logrou interpretar o casticismo pitoresco dos antigos bairros de Lisboa, fixando trechos Citadinos que o desenvolvimento urbano fez, mais tarde, desaparecer. Assim, alguns dos seus trabalhos constituem hoje preciosos documentos plásticos do passado alfacinha. As aguarelas mais valiosas estão reproduzidas no álbum Lisboa Velha, com texto do poeta Afonso Lopes Vieira. Como retratista mostrou R. G. as suas possibilidades nas primeiras exposições a que concorreu. O melhor trabalho que executou nesse género foi o retrato da mãe, pelo qual obteve, na Exposição de Paris de 1900, a Medalha de Honra. Distinguiu-se tb. como ilustrador, umas vezes sozinho, outras de colaboração com outros pintores. No ambiente do seu lar cresceram para a vida artística Raquel Roque Gameiro Ottolini, Manuel Roque Gameiro, Helena Roque Gameiro Leitão de Bairros, Màmía Roque Gameiro Martins Barata e Ruy Roque Gameiro, escultor este último, morto num desastre aos 28 anos, BIBL. Fernando Pamplona, Dic. de Pint. e Escult.

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J. Hormigo   

in Catálogo da exposição de aguarelas (8 a 25 de Fevereiro de 1982)   

Galeria da Câmara Municipal da Amadora   

 

ROQUE GAMEIRO

Alfredo Roque Gameiro, pintor aguarelista, nasceu em Minde (Porto de Mós) a 4 de Abril de 1864 e faleceu em Lisboa a 5 de Agosto de 1935. Apaixonado do mar, seu companheiro de infância, Roque Gameiro pensou seguir a carreira de oficial da Armada e para tal fez os seus estudos secundários, findos os quais se matriculou na Escola Politécnica. Mas, com mágoa, não lhe foi possível seguir a Carreira Naval; emprega-se na Litografia Justino Guedes, seu irmão, como aprendiz de litografo, onde desenvolve os seus conhecimentos de desenhador. Discípulo de Casanova e Manuel Macedo, com 23 anos apenas, e de parceria com este, Rafael Bordalo Pinheiro e Columbano lança-se na publicação do livro «Costumes Portugueses» onde reúne antigos tipos populares portugueses, em belíssimas cromolitografias.

Mais tarde, num concurso para pensionista do Estado em Escolas estrangeiras de Artes Gráficas, Roque Gameiro vem a ser admitido, e parte para a Alemanha (1893), onde permanece dois anos, a estudar na Escola de Artes e Ofícios de Leipzig. Aí, destaca-se entre os seus colegas, pela qualidade dos seus trabalhos, tendo-lhe sido atribuídos dois prémios de estímulo. Regressado de Leipzig, assume a direcção artística das Oficinas da Companhia Nacional Editora, cargo que deixou em 1894, em virtude de ter sido nomeado professor da Escola Industrial Príncipe Real, onde permanece alguns anos. Da sua actividade como ilustrador, resultaram obras importantes como: «Lisboa Velha», «Quadros da História de Portugal», «As Pupilas do Senhor Reitor», «História da Colonização do Brasil», etc, etc, em que o mestre se revela capaz de reconstituições históricas à moda do seu tempo. Mas foi na paisagem, e sobretudo como intérprete do mar, dos trechos da nossa costa alcantilada e arenosa que Roque Gameiro evidenciou a pujança da sua força criativa; «fixando de maneira saborosa o colorido e o encanto dos nossos rincões sertanejos». Acentua José A. França que «Roque Gameiro deve ser tomado como o marinhista mais fino e mais hábil que, dentro do sistema romântico-naturalista, houve em Portugal, ganhando nesse domínio vantagem ao rei D. Carlos».

Roque Gameiro recebeu numerosos prémios entre os quais destacamos: 3.a Medalha na 1.a Exposição do Grémio Artístico; 1.a Medalha em aguarela e desenho do Grémio Artístico (1897-98); medalha de honra na Sociedade Nacional de Belas-Artes (1910); medalha de ouro no Salon de Paris (1900); granprix, na Exposição Internacional do Rio de Janeiro (1908); medalha de honra de 1.a classe na Exposição Internacional de Barcelona (1924); grande prémio na Exposição Internacional Comemorativa da Independência do Brasil. Em 1923, foi eleito membro da Real Academia de Belas Artes de S. Fernando de Madrid — distinção raras vezes concedida a artistas estrangeiras. Em 1934 foi nomeado cidadão de Lisboa tendo recebido a medalha de Ouro da cidade em 1934.

A vasta obra do incansável artista, encontra-se dispersa por colecções particulares em Portugal e no estrangeiro, e está representado nos museus: Nacional de Arte Contemporânea, da Cidade de Lisboa, e Arte Contemporânea de Madrid, de Viseu, no Museu do Minde (actualmente em obras) e no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.

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Anto Oliva   

    Do jornal «A Venteira», 15. Dez. 1921   

in Catálogo da exposição de aguarelas (8 a 25 de Fevereiro de 1982)   

Galeria da Câmara Municipal da Amadora   

 

«O panegírico de Roque Gameiro está feito e a crítica da sua grande obra, também, felizmente, já a fizeram há muito, homens parcimoniosos no emprego dos adjectivos que hoje servem para todos, até mesmo para aqueles que à falta de talento se escudam com uma pretensa forma que só eles, os eleitos, sentem e compreendem.

Vendo Roque Gameiro, como disse Ribeiro Artur, adivinha-se logo o artista; aquela cabeça que Ramalho soberbamente desenhou a pastel tem a luminosa fantasia da arte que anima e inquieta, e ao contrário dos que nada valem, inspira, pela modéstia da atitude, a mais profunda simpatia. Falar da obra deste glorioso artista, desde os seus primeiros trabalhos na Companhia Nacional Editora, à volta dos seus brilhantes estudos na Escola de Artes e Ofícios de Leípzig, até às aguarelas primorosas das Pupilas do Senhor Reitor, é tecer um hino de glória à Arte, que Gameiro tem cultivado com inigualável honestidade e com carinhos sem par.

A côr não tem segredos para Roque Gameiro, e o desenho, por onde mais e melhor se pode aquilatar dos méritos dum artista, tem em Gameiro um cultor irrepreensível. Senhor duma perfeita técnica, os seus trabalhos são interpretações delicadas e correctas, onde, talvez, haja um pouco de demasiado detalhe, mas onde também a luz vibra cheia de verdade e o sentimento canta numa paixão sublime pela Arte.

Enfim, Roque Gameiro, é na pureza absoluta do termo, um grande artista a quem devíamos esta homenagem.»

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Afonso Lopes Vieira   

in «LISBOA VELHA»   

in Catálogo da exposição de aguarelas (8 a 25 de Fevereiro de 1982)   

Galeria da Câmara Municipal da Amadora   

 

«Pertence ao mestre Roque Gameiro àquela boa raça dos artistas com solidez — solidez em tudo, na arte e na vida. Este feitio de homens cada vez mais raros em um tempo em que a tantos avassala a corruptora tentação do Dinheiro — alicerça-se em bases que continuam a ser, e sempre hão-de ser, as mais belas: na altura moral de suas dignidades, na técnica poderosa e seríssima de suas obras, e na limpidez, carinho e ambiente de seus lares, de que a Casa da Amadora se enobrece como exemplo.

Do Lar Patriarcal de Roque Gameiro têm saído, para seguirem claros rumos de vida, as Filhas do artista, discípulas de seu Pai, artistas elas próprias de pobro, gracioso e original talento. E, ao calor da lareira em cuja fábrica piedosamente colaboraram as suas mãos e as de todos os seus, a vida do bom mestre tem decorrido, serena no labor, segura nos triunfos, honrada nos êxitos.

Mas este homem caseiro, que estima, ao jeito dum flamengo, o recato dos interiores, pertence também à grande escola dos artistas caminheiros, os quais elegem para oficina de trabalhos os campos e as praias, os vales e os montes, se embebem de luz e de ar livre, se encantam com a côr e a linha dos aspectos e com o carácter das gentes que os povoam. O grande desenhador e aguarelista conhece a palmos a terra da sua Pátria, por onde há mais de quarenta anos jornadeia. Sempre vestido de briche nacional, rude estofo tão azado para as calmas do Verão como para os frios do Inverno, este homem, moço de espírito, achou o segredo da perpétua juventude no enternecimento com que jamais se cansa de colher as fisionomias doces, severas ou amplas de Grei. Para guardar-lhe os traços suaves ou grandiosos, tem subido as serras ásperas e tem desenhado, ao ritmo das vagas, a bordo de batéis de pescadores. Com poder comunicativo de homem lhano em quem as lhanas criaturas do povo adivinham um parente quanto superior, porém afável, demorou-se a conversar, de mão a mão, com marítimos, lavradeiras e zagais, cujo carácter transfunde em seus desenhos. E deste modo, trespassado de lusitanismo, Roque Gameiro tem produzido, com tão exemplar seriedade e tão adestrado talento, o que se me afigura um vasto Livro de Horas português. Creio, em verdade, que este mestre descende dos nossos admiráveis iluminadores dos séculos XV e XVI, os quais nos legaram terníssimas páginas, tão sentidas nas atmosferas, nas árvores e nas personagens, que ainda agora as reconhecemos por bem nossas, desta terra e desta alma. Publicou a Lusitânia, no seu fascículo de Natal, a reprodução de uma iluminura do Livro de Horas de D. Manuel. Quando se olha para esta paisagem invernal, em cujo céu se recortam um campanário e ramos despidos, e se considera a fisionomia das casas, mais aquela preciosa nota rústica do burrito parado no caminho, dir-se-ia que respiramos o familiar perfume desse chão. Sentimos, então, que céu, árvores, coisas e gentes, todos são de Portugal, e que o desenhista manuelino — de certo modo bom caminheiro, por tão curioso do natural como Roque Gameiro se tem mostrado — vem a ser um dos avoengos deste artista, iluminador de modernas Horas nacionais.»

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Artur Portela   

por ocasião da morte do artista   

in Catálogo da exposição de aguarelas (8 a 25 de Fevereiro de 1982)   

Galeria da Câmara Municipal da Amadora   

 

«Do século XIX até nossos dias, três grandes nomes ficarão na história da arte: Columbano, Malhoa e ele.

Pode dizer-se sem exagero que, com o artista que desaparece, morre a aguarela portuguesa. Não a que muitos consideram um género menor, nem aquela que busca no impressionismo e nos motivos anedóticos de pequenas dimensões, a sua razão de ser, mas a aguarela de grande fundo, forte, vigorosa, vibrante, com todos os segredos e magias orquestrais da côr, quadro completo, senhora da sua beleza e da sua individualidade, que vivia por si e que, como nenhuma outra, nos dava a imagem de Portugal.»

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  Raul Lino   

in catálogo da exposição do 1.° centenário do nascimento do artista   

 

«Entendíamo-nos muito bem. Aproveitávamos domingos ou feriados para percorrer arredores de Lisboa ou regiões do Alentejo, porquanto o pouco tempo livre que tínhamos e o meio individual de transporte de que dispúnhamos — que eram as bicicletas — não nos permitiam ir mais longe. Mas as nossas vidas prenderam-nos para sempre à capital e foi assim que o meu grande Companheiro acabou por ser o poeta que nas suas aguarelas melhor soube cantar e... cantarolar os encantos e os recantos da nossa amada Lisboa antiga.

Perdoe-se-me não ter sabido apagar mais a minha pessoa nos entrelaços desta pequena silva ditada pela saudade!»

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José Augusto França   

in «A Arte em Portugal no Séc. XIX»   

 

«Dentro desse esquema (fixação de imagens da terra Portuguesa) cabe ainda um aguarelista notável: Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) marinhista sensível e fixador de tipos lisboetas, na esteira do seu mestre Manuel de Macedo, com o qual colaborou ainda em ilustrações famosas de livros de luxo. Mais cedo que os outros paisagistas, e logo depois de Carlos Reis, mereceu ele a medalha de honra da SNBA, em 1910.»

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 J. Hormigo   

 Catálogo da exposição de aguarelas (Setembro de 1985)   

 Galeria da Câmara Municipal da Amadora   

 

No ano em que se completa o 50.° aniversário da morte de mestre Roque Gameiro, seria injusto não relembrar a quantos ainda o conheceram e admiraram e também às novas gerações, a obra imortal desse notável mestre do desenho e da aguarela e o inovador das artes gráficas em Portugal.

Nasceu Alfredo Roque Gameiro a 4 de Abril de 1864 em Minde (Porto de Mós) filho de Manuel Roque Gameiro (Migança) e de Ana de Jesus. Foi para Lisboa em 1874. Casou em 1888 com D. Maria da Assunção de Carvalho Roque Gameiro. Do consórcio nasceram: Raquel (n.1889), Manuel (n.1892), Helena (n.1896), Màmía (n.1901), e Ruy (n.1907).

Com dez anos apenas vem à conquista de Lisboa, para a companhia do irmão mais velho, Justino Guedes, proprietário de uma litografia. Inicialmente, o pequeno Alfredo aspira a uma carreira de oficial da armada, mas o sonho da vida do mar tornou-se irrealizável. Emprega-se como aprendiz de desenhador litografo na oficina de J. Guedes. De 1874 a 1883 entrega-se aos estudos nocturnos e à laboriosa actividade litográfica – seu ganha-pão. Frequenta a Escola de Belas-Artes de Lisboa, e partilha o seu tempo entre os trabalhos puramente técnicos e a pintura de aguarela.

E aqui é possível desde já estabelecer três momentos capitais na vida do artista: o desenhador litografo, o ilustrador de publicações e o pintor aguareiista.

 

DE DESENHADOR LITOGRAFO A DIRECTOR DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Foi com efeito, na qualidade de aprendiz de litografo que Gameiro se iniciou nas oficinas gráficas da litografia Guedes, situadas à Rua da Oliveira do Carmo n.º 12. das quais veio a ser director técnico. Aí teve oportunidade de desenvolver os seus conhecimentos naquela matéria. Desenhou e litografou coisas banais, como rótulos para caixas de fósforos, de vinhos, de conservas, de bolachas, de graxa, e outros, mas, executou igualmente trabalhos mais exigentes como estampas, retratos, cromos e cartazes, etc. O trabalho esmerado saído de suas mãos tinha uma qualidade superior, muito distinguido e apontado pela crítica.

Veio o ano de 1883 e surge a ideia de serem criadas no país algumas indústrias.

Aberto um concurso para bolseiros de artes gráficas no estrangeiro, no tempo em que era ministro das Obras Públicas António Augusto de Aguiar (1838-1887), Gameiro concorre e é admitido. Dirige-se para a Alemanha, onde se demora, no estudo dos mais modernos processos de litografia, na mundialmente famosa Escola de Artes e Ofícios de Leipzig; mas, vencido por uma profunda nostalgia, volta ao país decorridos pouco mais de três anos. No regresso, assume a direcção da Companhia Nacional Editora, onde desenvolve notável actividade, gerando aí uma verdadeira revolução nas artes gráficas. É exemplo dessa revolução o excelente «Álbum de Costumes Portuguezes», bem demonstrativo da sua vocação técnica, lançado escassos anos após a sua estadia em Leipzig, tinha então 24 anos. O alto nível dos produtos saídos desta empresa, demonstram claramente o grau de competência de Gameiro. Em 1888 figuravam já na «Exposição Industrial Portugueza» em Lisboa, com admiração e louvores públicos.

Não se restringiu, no entanto a sua actividade às artes gráficas, pois aproveita algum tempo para se dedicar à sua verdadeira paixão: a aguarela. Entretanto, era nomeado para professor da Escola Industrial Príncipe Real (1894), mas foi breve a passagem pelo magistério.

 

O ILUSTRADOR DE PUBLICAÇÕES

Dedicou Gameiro longos anos da sua vida artística à actividade de ilustrador de publicações. E será necessário remontar aos finais do século XIX, para aí surpreendermos os artista atarefado com programas, capas de livros, ilustração de livrinhos, e edições especiais de Natal, dos jornais: «O Século», «Diário de Notícias», e «Comércio do Porto». Infelizmente, não foi ainda possível realizarmos um inventário satisfatório da sua produção nos domínios da Ilustração, mas será de realçar desde já as seguintes edições: «Álbum de Costumes Portuguezes» (1888), já citado obra de reconstituição de tipos populares ancestrais, em belas cromolitografias, em cuja factura trabalhou com Manuel de Macedo, Columbano, Condeixa, Malhoa, e Rafael Bordalo Pinheiro. Foi igualmente erudito colaborador artístico com seu discípulo Alberto Sousa nos «Quadros da História de Portugal» (1917), onde revela talento nas reconstituições históricas, de que aliás foi um grande precursor em Portugal. Realiza as ilustrações da edição de luxo das «Pupilas dos Senhor Reitor» (1908), «com discreto sentido sentimental» e da colossal obra «História da Colonização Portuguesa do Brasil», cuja direcção artística lhe foi cometida pelo responsá­vel literário Carlos Malheiro Dias. Nessa qualidade se desloca ao Brasil para «in loco» estudar o ambiente e recolher dados.

Ilustra «Lisboa Velha» (1925) prefaciada por Afonso Lopes Vieira, com numerosas reproduções de aguarelas e desenhos representando aspectos de Lisboa antiga, alguns hoje infelizmente destruídos pelo camartelo bárbaro do homem; é um trabalho relevante do ponto de vista documental, e da maior importância para a sensibilização e estudo do património histórico-monumental da cidade de Lisboa. Colabora com seu colega Manuel de Macedo na ilustração de «Os Lusíadas» (1900), e nas «Obras Completas de Garrett» (1904). Intervém ainda na execução artística de outros livros de menor projecção: direcção artística da «História das Toiradas» (1900), de Eduardo Noronha, onde colaboram entre outros, Manuel de Macedo, Alfredo de Morais, R. Gameiro e Alberto Sousa; de parceria com Manuel de Macedo ilustram com litografias a cores «A Ambição D'um Rei» (1904), de Eduardo Noronha e «Leonor Teles» (1905), de Marcelino Mesquita; «A Ala Dos Namorados» de António de Campos Júnior; e «Portugal de Algum Dia» (1933) com colaboração literária de Gustavo Matos Sequeira, em que são reproduzidas cenas, costumes e usos de outros tempos.

Roque Gameiro foi pois uma figura importante na arte de ilustrar, da época romântica-naturalista.

 

O PINTOR AGUARELISTA

Se como litografo e ilustrador, Gameiro se notabilizou, foi como aguarelista, que a sua obra se tornou conhecida e admirada no país, com reflexos além fronteiras. Com efeito, desde muito cedo, a crítica o apontou como o maior aguarelista português. Pintor dos bairros pobres, de vielas enviesadas e prédios quinhentistas.

Para termos uma noção da trajectória percorrida pelo pintor aguarelista, será necessário recuarmos ao tempo em que foi bolseiro na Alemanha onde pintou o pequeno e histórico quadro a aguarela, intitulado «Begónía» porventura a primeira manifestação hoje conhecida do mestre na arte de aguarelar.

Foi no entanto em 1892 que R. Hogan e Enrique Casanova, pintor aguarelista espanhol, mestre de reis e de príncipes fundaram uma «Sociedade dos Aguarelistas Portugueses» em Lisboa, onde se procurou desenvolver este processo de pintura. R. Gameiro, teve ensejo de manifestar o seu entusiasmo por essa técnica mal conhecida em Portugal, recebendo lições de Casanova, mas em breve se distingue do grupo. Tanto assim, que logo na 2ª. exposição do «Grémio Artístico», é galardoado com a 3ª. medalha e no ano seguinte no «Salão do Palácio de Cristal» no Porto, obtém uma menção honrosa,  sendo proclamado o 1º. aguarelista português.

Era tão exímio no tratamento das figuras como nas paisagens e com o mesmo nível de qualidade pintava os «grandes vultos e cenas da história pátria, como as figuras e cenas populares, às quais dava além do primor do desenho e da riqueza do colorido, um halo de poesia e de sonho em tudo exprimindo o seu carácter. Ele estudou e reconstituiu como ninguém, nas suas preciosas aguarelas, as figuras dos séculos XVII, XVIII e XIX, enquadradas ou não em ambientes de rigor histórico e apropriada expressão pictural».

Poderemos em suma distinguir grosso modo algumas fases temáticas distintas na obra de Gameiro: a paisagem, cenas rurais, aspectos urbanos, o retrato e finalmente a marinha. Esta seria a derradeira predilecção do artista.

Diria Armando de Lucena, pintor e historiador de arte, que «conforme os vários ciclos da sua actividade assim variam os processos oficinais: ora minucioso no descritivo dos temas focados ora sumário na expressão dos motivos dominantes da paisagem, no gesto das figuras, nos agrupamentos humanos, na composição, finalmente, das obras, já grandes quadros mesmo quando de pequenas dimensões. Tudo em suma, repassado de beleza e graça, com aquele irresistível poder de sugestão... Apaixonado pela luz cor e peia vida rural da sua terra, a paisagem foi para o artista, uma constante obsessão. O mar teria sido, porventura, a última paixão da sua vida. Quem o observasse em horas de profundo recolhimento poderia surpreendê-lo, a beira do mar, sondando aqueles misteriosos movimentos da água e de formas consecutivas, e a construir mentalmente a arquitectura amorosa das vagas...».

Como pintor, concorre a quase todas as exposições do Salão do Grémio Artístico, que em Lisboa se realizavam.

O Grémio Artístico, era uma associação cujos fins se destinavam essencialmente a «promover a cultura das artes plásticas», e nascera nos finais de 1888, do «Grupo do Leão», que depois se dissolvera. Em 1890 são aprovados os estatutos e eleita a primeira direcção. Neste salão, passará Gameiro a expor assiduamente, ao lado do rei D. Carlos e outros. E logo em 1892, obtém aí uma terceira medalha. «Nunca mais deixa de marcar a sua presença em exposições por meio de êxitos e recompensas, no meio de louvores unânimes...» Vem mais tarde (1896-97) a receber as 1as.   medalhas de aguarela e desenho.

No entanto o Grémio Artístico teve uma vida relativamente curta, mas mesmo assim realizou um programa de nove exposições anuais (1891-1899), data em que se funde com a Promotora dando origem a Sociedade Nacional de Belas Artes (1901). E a partir daqui que o vemos neste Salão, como assíduo expositor, nas grandes mostras colectivas. A Sociedade Nacional de Belas Artes, confere-lhe em 1910 uma alta distinção — a Medalha de Honra. Mas já em 1908 na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, recebera o «Grand Prix». Enquanto as suas obras vão surgindo por várias exposições, Gameiro, muda o «atelier» para Lisboa, a Rua D. Pedro V, que fora de Jorge Colaço e «sobre cujas modestas portas passou a figura esbelta da rainha D. Amélia».

Em 1920, surge-lhe a grande oportunidade de visitar o Brasil. A colónia portuguesa naquele país preparava-se para comemorar o seu 1º. centenário da independência e tomara a iniciativa de mandar escrever uma obra de carácter histórico-artístico da colonização dos portugueses. Gameiro é nomeado director artístico daquela edição e nessa qualidade vai ao Rio de Janeiro estudar a paisagem e proceder à recolha de elementos. Aproveita a viagem para com sua filha Helena expor mais de noventa quadros, ao povo brasileiro; o impacto causado, provocou a maior sensação nos meios literários e artísticos, tendo sido os quadros avidamente disputados. O Presidente da República do Brasil Dr. Epitácio, dignou-se honrar os artistas e o país, inaugurando solenemente a exposição. S. Paulo teria depois ensejo de poder igualmente admirar as suas obras.

Obteve igual sucesso a «Exposição de Aguarelistas Portugueses» em Madrid (1923), na qual participaram: Columbano, Alves de Sá, António Carneiro, Martinho da Fonseca, Leitão de Barros, Paulino Montês, Roque Gameiro, Raquel Gameiro Otolini, Helena Roque Gameiro e M. Barata. A crítica e o público teceram rasgados elogios às obras dos pintores portugueses. Também Suas Magestades o rei Afonso XIII, e a rainha Vitória de Espanha homenagearam os pintores, visitando a exposição. É eleito entretanto, Membro da Academia de S. Fernando de Madrid.

Em 1924 na Exposição internacional de Barcelona, obtém a Medalha de Honra de 1a. classe. A sua última exposição fê-la no Porto com as filhas Raquel e Helena, em 1933 e no ano imediato, a Câmara Municipal de Lisboa, «premiando os altos serviços prestados à cidade» conferia-lhe, como aos olissipógrafos Vieira da Silva e Matos Sequeira –, a Medalha de Oiro de Mérito Municipal. Culminava assim uma vida de intenso trabalho e de ardente amor a Lisboa. Falecia pouco depois, em 5 de Agosto de 1935 nesta cidade.

Em 1946 realizou-se a primeira grande retrospectiva, póstuma, que constituiu um grande acontecimento, e «permitiu estabelecer o artista a par dos seus contemporâneos». A cidade da Amadora, vem nos últimos anos tributando justas homenagens ao mestre, no intuito de divulgar a sua obra às novas gerações.

Em 1980, foi realizada a 1ª. mostra na cidade da Amadora, na Escola Preparatória Roque Gameiro. Seguiu-se-lhe uma grande exposição na Câmara Municipal, em 1982.

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A presente exposição retrospectiva e bioblibliográfica evocativa dos 50 anos do passamento do grande mestre compreende grande número de aguarelas, desenhos, e as mais significativas obras artístico-literarias, por ele ilustradas; demais, reúne numerosas edições avulso documentando as várias facetas e ciclos do homenageado, permitindo uma visão suficientemente clara da sua obra. Estamos certos de que é um importante marco cultural na vida da jovem cidade da Amadora. Cidade que nos tempos de Roque Gameiro, foi um lugar pequeno, sem grande relevo, em cuja comunidade o artista participava; recordemos que fazia parte da Liga dos Melhoramentos da AmaSdora, para a qual desenhara o respectivo emblema; o seu nome ficaria ligado ao ensino, na Escola Alexandre Herculano, a cuja direcção pertencia com o poeta Delfim Guimarães e outros, e às grandiosas festas, nomeadamente as da árvore. Nesta localidade fez construir a sua casa-atelier à moda da «estylização nacional», dotando-a de azulejos do grande caricaturista e ceramista Rafael Bordalo Pinheiro e onde passou a viver e trabalhar.

Aí foram produzidas obras-primas da arte portuguesa. Nos umbrais daquela porta passou uma célebre aguarela que em 1900 alcançava a Medalha de Oiro GRANDE PRÉMIO DA EXPOSIÇÃO DE PARIS; dali saiu igualmente uma plêiade de notáveis artistas portugueses — os seus filhos; por ali transitaram homens das letras das artes e das ciências, dos finais do século XIX, e princípios do XX.

De resto parte da obra que produziu, está impregnada da geografia física e humana destas paragens de outros tempos. Basta dizer que os montes e as colinas semeados de moinhos, os aquedutos, as saloias arrostando pesados fardos de roupa à cabeça e palmilhando léguas a pé ou de burrico, e os camponeses do termo de Lisboa são figuras e paisagens que Gameiro amorosamente transplantou nas suas aguarelas imortais.

Não foi tarefa simples reunir tamanho número de quadros do maior aguarelista português de sempre, quando os mesmos se achavam dispersos uns na posse da família outros em colecções particulares e outros ainda em museus.

A mostra, todavia, pelo valor histórico, documental e estético é inestimável, e significativa, porquanto reúne um vasto panorama da arte portuguesa nos processos da litografia, da aguarela, e nos domínios da ilustração do livro, abarcando vários ciclos da obra, ao longo da prodigiosa actividade artística de Gameiro.

Mais importante ainda que a data evocativa em si mesma, é quanto a nós a dinâmica a imprimir à iniciativa, traduzida na intenção de proceder à organização e montagem, num futuro próximo, da CASA-MUSEU ROQUE GAMEIRO, a ser fundada no local exacto da residência e atelier que foi do pintor, em plena Venteíra. E o primeiro passo simbólico para a instituição da mesma, foi desde já encetado pela filha do próprio mestre, a pintora D. Màmía Roque Gameiro Martins Barata, que fez oferta à Câmara e cidade da Amadora, de uma preciosa colecção de desenhos originais de seu pai.

O projecto em curso, no momento em que vão passados 50 anos depois da morte do pintor, será pelo alcance cultural, motivo de justificada satisfação e orgulho para os habitantes presentes e futuros desta cidade.