Caravela

CARAVELA - Artigo escrito para a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura
 
 
Caravelas latinas: de um mapa de Juan de La Cosa, Sevilha, 1500
Caravela latina: desenho de Duarte de Armas.
 
 
 
     I) Origem - Não podemos atribuir ao barco chamado «caravela», que é nome usado entre nós pelo menos desde o séc. XIII até ao séc. XVII, uma constância de forma equivalente à do nome. A CARAVELA do séc. XVII tem muito pouco de comum com o que podemos imaginar ter sido a do séc. XIII e, entre estas duas, bem diferente seria a do séc. XV, a dos Descobrimentos. No que todas convergem é no facto de, em relação aos outros navios seus contemporâneos, pelo menos as menos antigas, serem mais pequenas, mais ágeis e mais velozes do que eles. Muitas origens têm sido propostas para o nome CARAVELA. Parece estar agora aceite em toda a parte, e quase sem discrepância, ser ele um vocábulo nascido em Portugal e derivado do nome ↑ «cáravo», de um barco árabe. A ser assim, temos de admitir que a CARAVELA de pesca, pela primeira vez citada num foral doado por D. Afonso III, em 1255, à vila de Gaia, já tinha alguma coisa que ver com a náutica muçulmana. Como seria este barco, que, por aquele documento e por outros sequentes, se sabe ser de pesca e de pequena cabotagem? Não nos custa aceitar que o seu aspecto não diferiria muito, em linhas gerais, dos recentemente desaparecidos batéis da Nazaré e da canoa; barco pequeno, de boca aberta, talvez simétrico, com quilha, e vela triangular ou de pendão. Esta seria a «CARAVELA pescareza». São desconhecidos quaisquer does., de qualquer ordem, do séc. XIV, referentes à CARAVELA Sabe-se também lamentavelmente muito pouco, no campo arqueológico, sobre os navios do séc. XV, anteriores aos meados da centúria, além da grande evolução que concluiu pela ↑ nau de três mastros. E mais nos pesa a ignorância geral sobre as particularidades da CARAVELA, por ser este, de todos os navios daquela época, aquele que mais directamente nos toca, pois foi ele o instrumento admirável que permitiu os primeiros descobrimentos portugueses. Para essa ignorância contribuiu decisivamente a «política de sigilo», usada depois dos primeiros adiamentos e vigorosamente sustentada por D. João II até ao Tratado de Tordesilhas. O pouco que ora se sabe tem ainda como principal apoio os estudos arqueológicos e históricos de Lopes de Mendonça, operosamente seguidos por Quirino da Fonseca, Jaime Cortesão, Damião Peres e poucos mais. Sobre estes estudos, com novas interpretações de alguns dos documentos estudados e com alguns estudos estrangeiros que podem relacionar-se com estes assuntos, parece-nos de aceitar a verosimilhança do que se segue.
 
Caravela latina (de uma iluminura sobre Lisboa, de Simão Beninc)
 
Caravela latina (de um painel de Gregório Lopes, guardado na Igreja da Madre de Deus, em Lisboa)
 
Caravela manuelina (do Atlas de Pedro Reinel)
 
Caravela manuelina (reconstituição de Roque Gameiro sobre elementos fornecidos por Lopes de Mendonça.
Não serão talvez de aceitar a finura de mastros e vergas, a altura do castelo, o volume da popa e a falta da adriça).
 
 
 
     II) O Influxo árabe - O alastramento das con­quistas muçulmanas por todo o Norte de África, culminando com a ocupação da Pe­nínsula Ibérica no séc. VIII, trouxe a todas as respectivas costas o influxo da civilização árabe, e com ela novas ideias na prática marí­tima; entre estas a vela triangular, alla trina, desconhecida no resto do Mediterrâneo ou apenas usada como vela auxiliar ou de com­pensação e não como principal motor, eminente­mente propicio à navegação «contra o vento», ou bolina, então completamente ignorada na­quelas zonas. O génio árabe, na arte, na guerra, etc., opunha-se pela leveza e pela mobilidade ao peso e à força dos bárbaros cristãos. Con­sidere-se como a forma de montar «à gineta», toda de flexibilidade, se opõe à equitação «à brida», monolítica, dos guerreiros cristãos. Assim também a sua construção naval era mais leve, mais fina, do que a construção do Norte do Mediterrâneo e ainda mais do que a do Atlântico, com temporais e mares de maior violência. Os barcos árabes eram, pois, extraordi­nariamente móveis, capazes de uma bolina muito cerrada (qualidades que viriam a refinar no xaveco do séc. XVII, barco de piratas e corsários), devido ao seu velame latino; mas certamente de cascos leves e pouco robustos. O objectivo do infante D. Henrique era a exploração da misteriosa costa atlântica de África, empresa que partiria da costa do Algarve por ser mais próxima daquela. Os barcos que dali partiam para o desconhecido tinham de ser de pouco calado, pois ignora­vam-se os fundos que se iam encontrar; tinham de ser pequenos e de pequena tripula­ção, 50 a 100 tonéis e uma ou duas dezenas de homens, pois havia que levar provisões e mantimentos que dessem para a ida e para a volta; e pela mesma razão havia que ir e voltar depressa. A linha mais directa NE-SO, para o caminho, tinha justamente ventos do­minantes nesse sentido, isto é, na ida teriam vento de popa mas na volta teriam vento ponteiro, o que obrigaria a uma grande, longa volta ou a um barlaventear cerrado, assegu­rando volta mais rápida. De aqui e das condições expostas, o ser indicada para essa empresa a vela latina. A «criação» portuguesa da CARAVELA é essencialmente a inteligente adaptação de um barco árabe de velame latino, reforçando-lhe o casco para a navegação atlântica sem perda das suas qualidades de finura de querena originais. Não será mais do que uma adaptação, como sempre aconteceu com as coi­sas do mar, onde a súbita «invenção» de um barco, em tudo inédito, seria incompreensível. Mas tem o valor de uma autêntica criação, e isso, universalmente reconhecido, constitui a glória dos nossos construtores e pescadores-marinheiros. Destes navios disse o veneziano Cadamosto, que bem os conheceu, «sendo as CARAVELAS de Portugal os melhores navios de vela que andam sobre o mar [...] julgava impossível não poderem navegar por toda a parte». Assim se teria chegado à CARAVELA dos Descobrimentos ou «CARAVELA de descobrir», nome que lhe foi dado na época, segundo averiguou Jaime Cortesão. A política de segredo procurava evitar aos estran­geiros o conhecimento das cartas de navegar e da forma das CARAVELAS sendo condenado pesada­mente quem vendesse ou mostrasse a estranhos algum daqueles barcos. Mas que poderia carac­terizá-los que não estivesse à vista de qualquer espião em Lagos? É obvio que tal proibição apenas procurava impedir o conhecimento das obras vivas da CARAVELA e do seu  interior.
 
Caravelas de armada (das Lendas da Índia, de Gaspar Correia)
 
Caravelas redondas dos fins do séc. XVI (do Atlas de Ortelius).
 
 
 
     III) Características - Somos assim levados a supor que a CARAVELA de descobrir, toda feita para a velocidade e para a bolina, deveria ter sido um navio baixo, umas vezes coberto, outras de boca aberta, de velame latino bastardo, com um mastro a meio ou dois ou três mas­tros, e nestes dois últimos casos sempre maior o de vante e sempre a meia nau. Para ré decresciam mastros —mastro grande, mezena e contramezena — e velas, exigindo a última um botaló. A popa seria redonda e sobre ela existia um castelo de um só pavimento. Isto se conclui de desenhos e de pinturas do começo do séc. XVI, os primeiros documentos plás­ticos conhecidos. Devendo o casco poder suportar o adernamento que uma forte bolina provoca, e não podendo ter um grande calado, deveria suprir a falta de grande quilha por uns flancos largos. Estas características, com a de uma proa afilada, são ainda as caracterís­ticas de algumas pequenas embarcações de pesca algarvias, lanchas ou enviadas. Em bar­cos de maior porte, como as canoas do alto e nos antigos caíques, barcos que na tonelagem se aproximavam da que conhecemos de algu­mas CARAVELAS, a manobra de cambar a vela era feita, ainda há poucos anos, na proa do barco, muitas vezes varrida pelas águas, proa baixa e rasa, para permitir esta manobra, por dois homens, que, abraçados ao grosso carro de uma verga de 25 m, a põem a prumo, para a deslocar de uma a outra borda, obrigando-se a passá-la rente à ré do mastro, síncronos com a voz do arrais ao leme e com o companheiro que muda a posição da amura. É coisa difícil e perigosa, só realizável por homens de saber e coragem como são, ainda hoje, os marinheiros do Algarve. Assim seriam os do Infante e, como aqueles, forçosamente teriam de fazer a mesma manobra. Não admira que as gentes dos mares do Norte prefiram, à latina, a vela redonda ou a de lugre, de menos rendimento, mas também menos perigosa. Já dizia Garcia de Resende na Crónica de D. João II: «[...] porque em todo o mar oceano não há navios latinos se­não as Caravelas de Portugal e do Algarve». As primeiras representações conhecidas de CARAVELA portuguesa são de 1500, numa carta de Juan de la Cosa, piloto de Colombo. Poucos anos depois Duarte de Armas e Gaspar Correia também as desenha­ram. Na 3.ª década do século, Gregório Lopes pintou num retábulo de St.ª Auta, da Igreja da Madre de Deus, em Lisboa, uma CARAVELA  com muitos e definidos pormenores. Quem estiver habituado a apreciar desenhos e a julgar da decisão e sinceridade com que foram feitos, e se lembrar de que estes são de uma época em que já dominava o gosto pela realidade objec­tiva, terá de reconhecer a sua idoneidade, além da já reconhecida idoneidade dos seus autores. E poderá verificar que a hipótese acima exposta se pode inscrever naquelas represen­tações, descontando apenas a altura exagerada de alguns dos cascos (menos em Gaspar Correia) e dos castelos de ré, cujos pés-direitos, na realidade, não excederiam 1,50 m.
 
Caravela latina (de uma gravura setecentista de Ceuta)
 
 
Caravela redonda do séc. XVII (de um quadro do Santuário de N.ª  S.ª  da Nazaré).
 
 
 
     IV) Utilização - Descobertas as costas que era possível descobrir, começaram as grandes viagens de comércio e de ocupação, feitas já por armadas de naus, depois por armadas de naus e de galeões, navios redondos no velame, bojudos, lentos, mais os primeiros do que os segundos, e cuja arqueação foi crescendo du­rante os sécs. XVI e XVIII. Essas armadas não podiam seguir os caminhos, mais directos, das lestas CARAVELAS latinas, e tomavam rotas muito mais largas. Para recados entre esses barcos pesa­dos e a terra, para anúncios e notícias, com eles iam algumas das lépidas pequenas CARAVELA latinas, chamadas, em virtude das suas fun­ções, «mexeriqueiras». Também as CARAVELAS latinas podiam fazer largas viagens, e algumas vieram, isola­das, da Índia para Portugal ou daqui para lá foram. Mas eram barcos pequenos demais para se oporem a qualquer ataque e foram sendo pouco a pouco artilhados e crescendo em tamanho. E para acompanhar as grandes naus, que procuravam ventos de feição, também tomaram algum pano redondo, o qual, para ventos de popa, é de maior rendimento e mais cómodo do que a vela latina. Assim apareceu a «CARAVELA redonda», também chamada «CARAVELA de armada». É um barco de quatro mastros, dos quais o de proa armava traquete e velacho (velas re­dondas) e os outros três armavam latinos bas­tardos, como os da CARAVELA latina de três mastros. Destes três, o de vante continuava a meia-nau. O seu casco era mais fino do que o das naus e tinha mais funda quilha, para a bolina. Tinha, além do castelo de popa, castelo de proa, agora, possível, porque o carro da vela latina não indo à proa, não exigia que fosse rasa a proa. Era pois a CARAVELA redonda um misto da CARAVELA e da nau e procurava com isso obter as vantagens de cada um dos tipos: a agi­lidade e a facilidade de barlaventear do primeiro e o poder, segurança e bom andar de vento em popa do segundo. Durou este tino muito tempo, até se extinguir o nome de CARAVELA, e dela existem planos, do começo do séc. XVII. Se assim aconteceu, é porque serviu, resistindo às criticas. Não devemos esquecer, todavia, o que sobre esta CARAVELA redonda escreveu nos meados do séc. XVI o culto P.e Fernando de Oliveira, soldado, marinheiro prático e ousado aventureiro: «A mim me pareceu sem­pre que caravelas de armada não eram tão boas como são gabadas, por serem um género de navios misturado e neutro, e as partes que tomam de cada um dos outros géneros serem as piores, como mulato.» É, portanto, à pe­quena e humilde CARAVELA de descobrir, tripulada por marinheiros de excepção, que não igno­raram o medo, mas o dominaram, que deve­mos o nosso reconhecimento. E é de lamentar que o seu nome glorioso de barco especificamente português seja dado, por portugueses, a qualquer navio antigo, de vistoso velame, cheio de cruzes de Cristo. Num precioso tratado de 1616, o Livro das traças de carpintaria, de Manuel Fernandes, descreve-se a construção de uma CARAVELA; nesse, noutros ainda, e no que sobre CARAVELA dizem alguns escritores dos meados do séc. XVI se baseiam, com maior ou menor fideli­dade e sentido náutico, quase todas as reconstituições da CARAVELA dos Descobrimentos. Embora se trate de documentos fidedignos, não nos pa­rece muito certa essa orientação, pois além de terem passado c. 200 anos sobre os pri­meiros descobrimentos, as funções a que se destinavam as C. de 1616, e de depois, eram muito diferentes das que se requeriam às CARAVELAS de descobrir. Parece-nos mais indicado, para a reconstituição destas, procurar as caracte­rísticas dos barcos de hoje ou de há poucos anos, que, com cascos e aparelhos afins e de que os barcos de pesca algarvios são os últi­mos representantes, são capazes de fazer o mesmo que faziam as CARAVELAS do Infante, nas mesmas rotas, com as mesmas imposições, com os mesmos mares e ventos, e com gente igual. É certo que com esta ideia se obtêm reconstituições menos vistosas e coloridas; mas sem dúvida mais verosímeis, mais de acordo com a eficiência e a modéstia deste barco glorioso. A chamada «CARAVELA espanhola» do séc. XV é se­melhante à nau portuguesa sua coeva. Tem castelo de proa, impossível na CARAVELA latina portuguesa por impedir o cambar da vela. Em Espanha só depois do Tratado de Tordesilhas, quando «o segredo» se tornou inútil, foi usada a CARAVELA la­tina portuguesa, como lá mesmo lhe chamavam; e só na costa atlântica contígua à do Algarve.
 
JAIME MARTINS BARATA