O Livro de bébé

                    Título: O Livro de Bébé
                   Autor: Delfim Monteiro Guimarães (1872-1933)
          Publicação: Lisboa : Papelaria Guedes, 1917
     Ilustrações de: Raquel Roque Gameiro (1889-1970)
  Descrição física: 1 v. : il. ; 31 cm
             Colecção: Bibliotheca illustrada d' O Século
          Informação: Biblioteca Nacional de Portugal
                    Nota: 3ª Edição - 1925
Artigos de revista: O Domingo ilustrado  (1ª Página) de 1925-11-15

 

     Em 1917, O Corpo Expedicionário Português, mal equipado e treinado, deixava-se massacrar nas trincheiras lamacentas de França e em Portugal a ingovernável vida política da Primeira República tinha um desfecho previsível na ditadura presidencialista de Sidónio Pais. No meio de tanto horror e desolação, nasceu um glorioso hino à vida e à esperança num futuro risonho para as crianças portuguesas… bem, não para todas. O Livro de Bèbé, edição da Papelaria Guedes, registava os episódios notáveis dos primeiros anos de vida da criança. Em jeito de diário, anotado pelos extremosos pais, constituía uma memória de tempos felizes onde não faltava sequer lugar para uma madeixa de cabelo. Se alguns dos sucessos descritos são interclassistas e universais, como o primeiro dente ou a primeira palavra, outros eram atributo de elite possidente e letrada, como a primeira vacina, a primeira papinha ou o primeiro exame. Há quatro versões do livro, de 1917 a 1969. Na primeira, O Livro de Bèbé, a autoria era dividida pelas ilustrações Belle Époque de Raquel Roque Gameiro (Lisboa, 1889-1970) e pelos versos xaroposos do escritor Delfim Guimarães. Na edição de 1925, mantiveram-se as quadras mas Raquel redesenhou os episódios no seu caraterístico traço a uma cor. Na terceira versão, A História do Bèbé, com datação provável da década de 40, Raquel renovou as ilustrações para os mesmos temas com textos de vários autores, adicionando episódios finais relacionados com o aumento da escolaridade e a renovada influência da Igreja.
     A imutabilidade do traço nas segunda e terceira versões, que acumularam reedições sucessivas ao longo de três décadas, acrescenta um interesse adicional à sua comparação. Podemos apreciar dois retratos de época, onde evoluem trajes, penteados e hábitos sociais. Evolui também a gramática decorativa da ilustradora, da luxuriante natureza vegetal Art Nouveau de 1925 à sóbria Art Deco, de ornamentação mais geométrica. Raquel é uma das mais virtuosas ilustradoras portuguesa da primeira metade do século XX. Provavelmente a única comparável aos grandes clássicos da época como o inglês Arthur Rackham ou o francês Edmond Dulac, ilustradores que Raquel assumidamente apreciava. Produziu vasta obra na literatura para a infância e na documentação de costumes tradicionais, onde se revelou exímia aguarelista, herança genética do pai Alfredo Roque Gameiro. Mas é na espantosa claridade da tinta negra que as suas ilustrações brilham. O traço tem uma insuperável limpidez e precisão, a espessura e definição são constantes em todos os planos, e a composição cinematográfica não teme a perspectiva e a assimetria.
     No tocante prefácio da derradeira edição, a um ano da sua morte, Raquel refere as dedicatórias das várias edições às sucessivas gerações Roque Gameiro: primeiro aos pais, em seguida aos filhos, depois aos netos, e, por último aos bisnetos, quando os seus olhos cansados já precisam das mãos da sua filha Guida Ottolini com quem reparte a autoria deste A História do Bébé – Recordações.

 

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3ª Edição - 1925
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