Partida para Ceuta e Casamento de D. João I

Frescos no Palácio de Justiça do Porto (1961)
(Dimensões: 5,75 m x 9,40 m)
 
 

Partida da Armada do Infante D. Henrique para a Conquista de Ceuta (1415)

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     Foi esta pintura baseada na descrição do embarque do Infante D. Henrique para a conquista de Ceuta, no Porto, em 1415, que nos deixou Gomes Eannes de Azurara na sua crónica de El-Rei Dom João I (Cap. XXXIV) procurando-se nela a representação simultânea de algumas passagens daquela descrição.
     A composição inscreve-se em grandes linhas de movimento, que procuram facilitar a leitura do quadro. Representa-se o Infante, jovem de 21 anos, com a sua cota de armas de Príncipe real, a cavalo (e só ele a cavalo) tendo junto de si a bandeira que mostra a sua alta hierarquia, a bandeira de El-Rei seu pai, com o lambel azul e suas flores de liz de oiro.
     Seguem-no a pé os cavaleiros da expedição, vestidos com as "librés" do Infante, cotas de armas pessoais (e não de Príncipe real), desenhadas segundo a descrição sumária de Azurara, corroborada pela iluminura da Crónica dos feitos de Guiné, atribuída ao mesmo autor.
     A insígnia pessoal do Infante, com desenho análogo ao daquelas cotas e librés, figura numa bandeira arvorada num grande mastro levantado no primeiro plano, ao lado de outro com a bandeira de El-Rei, que ali mostra tratar-se de empresa real e não particular de D. Henrique.
     No centro da composição vê-se a galé que transportará o Príncipe, cuja proximidade é anunciada pelos trombeteiros no cortejo e a bordo dos vários navios.
     Ao fundo, as naus e outras galés, de cujos tipos, desta época, há documentos suficientes para garantir a verosimilhança das formas representadas, documentos esses que foram seguidos com fidelidade, procurando no entanto, não se comprometer o efeito final que se desejava.
     Estão algumas dessas embarcações, como também a galé do Príncipe, toldadas e empavezadas com as cores da sua divisa ou da sua libré, dispostas em girão: o preto, o branco e o vis (azul escuro).
     No primeiro plano, à direita, atrás de um frade com a sua cruz processional, um remolar e um besteiro representam o povo que embarcou, e numas mulheres do povo, numas damizelas e numa dama, representam-se vários sentimentos de quem fica.
     À esquerda, dois açougueiros esfolam uma rês, cujas tripas, numa celha, um pouco ligadas, na sua forma, às formas do cabo da âncora, evocam o sacrifício da gente do burgo, que se dispôs a comer aquelas tripas para que aos da expedição não faltasse a carne; de aí, como é sabido, o título de "tripeiros" com que se orgulham os portuenses, e que não poderia deixar de ser aqui relembrado.
     A cor azul que domina esta pintura nos seus tons escuros provém de ser a cor predilecta do Infante, que a usou nas suas armas.
 
 

Casamento de D. João I (1387)

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(Estudo)
     Este painel procura evocar o enlace de D. João I com D. Filipa de Lencastre, celebrado no Porto no ano de 1387, e documenta-se substancialmente na admirável descrição de Fernão Lopes inserta na sua Crónica de El-Rei Dom João I (Cap. XCV e XCVI).
     Embora este acontecimento precedesse, naturalmente, o que se figura no outro painel, foi este outro painel, o do embarque, que comandou a composição pictórica geral desta sala, tendo-se harmonizado o painel do casamento com a escala e o ritmo daquele, o que não quer dizer que os estudos respectivos não se fizessem a par.
     No painel do casamento representa-se mais do que uma cena, pois que a cerimónia religiosa não foi imediatamente seguida de festejos, e convinha sugerir aqui simultaneamente os dois acontecimentos.
     Deste modo vê-se neste painel "o bispo da cidade, festivalmente em pontifical revestido", ladeado pela cleresia, à porta da Sé, e junto dele o Condestável D. Nuno. Em baixo, de mãos dadas, caminham sobre um tapete de verduras, El-Rei e a Rainha, acompanhados dos seus nobres, dos seus homens de armas e dos seus pagens, respectivamente com a bandeira real e a bandeira da casa de Lencastre, e das damas engalanadas e floridas, cantando e dançando.
     No primeiro plano vê-se gente do povo, cantando, dançando e aclamando; e também os pagens palafreneiros de El-Rei e da Rainha, respectivamente com a bandeira real e a bandeira da casa de Lencastre, junto dos cavalos brancos, ajaezados a branco e oiro, que os soberanos irão montar; e ainda o "Rei de armas", mestre de cerimónias, com a maça que simboliza a sua autoridade. O cavalo da Rainha está seguro pelo Arcebispo que, em homenagem, o irá conduzir.
     Acima de muitos estandartes e balsões das nobrezas de Portugal e de Inglaterra, dominam a composição grandes bandeira de Portugal e da casa de Lencastre, esta última usada com este desenho até poucos anos após este casamento.
     Para a indumentária e adereços destas personagens, em especial as das figuras femininas, utilizaram-se os estudos muito pormenorizados e documentados que se publicaram em Inglaterra depois de 1950.
 
 
 
Palácio de Justiça do Porto
 
Sala de Audiências do Tribunal da Relação
 
 
 
Alguns estudos
 
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Expo 1988: 119                                                                                    Expo 1988: 123
(Estudos de enquadramento)
 
 
 
Partida para Ceuta
 
Estudo
 
 
Partida para Ceuta
 
Estudo
 
 
Partida para Ceuta
 
Estudo
JMBC Alameda
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Casamento de D. João I
 
Estudo
Aguarela sobre papel
35 x 32 cm
Expo 1988: 121
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Casamento de D. João I
 
Estudo
Aguarela sobre papel
 
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Casamento de D. João I
 
Estudo
 
 
 
Outra descrição e significado, de José Pereira da Graça
 
Partida da Armada do Infante D. Henrique para a Empresa de Ceuta
 
     Descrição:
     Painel gigante cobrindo uma das paredes da Sala de Audiências do Tribunal da Relação.
     Vêem-se várias embarcações já com as respectivas tripulações a bordo. Uma delas, com um palanque montado, decorado com tapeçarias, onde se adivinha a inscrição da divisa do Infante D. Henrique, está ligada ao cais através de portaló. Ali, um grupo de homens aguarda. Para lá se dirige um nobre a cavalo, marchando atrás de si um numeroso grupo de soldados. Dois trombeteiros em terra e outros no palanque assinalam a chegada.
     Sobre o lado direito, ao fundo, frades e populares assistem. À esquerda, homens retiram o conteúdo de uma carcaça bovina. Estandartes com as cinco quinas e balsões tremulam ao vento. Num balsão azul e branco lê-se a expressão: «TALLANT DE...». Um pano de muralha é dourado pelo sol.
     Significado:
     D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique ansiavam por ser armados cavaleiros. O pai, D. João, sugeriu que se organizasse um torneio com intervenção dos cavaleiros de maior nomeada, onde os nobres moços pudessem demonstrar o seu valor guerreiro. Seria ao mesmo tempo, uma forma excelente de manter ocupados os nobres turbulentos. A esta ideia contrapôs o veador João Afonso de Albuquerque outra: os infantes poderiam dar provas de valentia atacando os sarracenos, em Ceuta. O alvitre foi entusiasticamente aceite e nem a morte de D. Filipa de Lencastre, causada por uma epidemia que entretanto grassou, esfriou os ânimos. Aliás, o Norte de África era cobiçado pelos portugueses e espanhóis por o julgarem imensamente rico e fértil.
    Foi o primeiro passo no sentido da expansão africana que havia de ser objecto de polémica, especialmente entre D. Pedro, que não era partidário dela, e D. Henrique, que a defendia incondicionalmente.
    Os portuenses não regatearam esforços e dinheiro para preparar os navios que sairiam a barra do Douro para se juntarem, em Lisboa aos restantes. Sob a orientação de D. Henrique, foram armadas sessenta naus e barcas, além de muitas fustas, nos estaleiros de Miragaia e Masserelos, em parte custeadas pela cidade. À sua custa arranjavam as provisões, enchendo os porões da melhor carne e guardando para si somente as tripas, advindo-lhe daí o honroso epíteto de «tripeiros».
    Aprontado o embarque em Miragaia, reune-se a esquadra em Lisboa, imponente e vigorosa, embandeiradas as galés com balsões e pendões no mestre e no traquete, ao som estrondoso dos timbales, trombetas e anafis. E aí vão as naus, as velas prenhes de brisa de feição, os vinhateiros retesando os músculos nos seus bancos, poderosamente agarrados aos remos. A Rainha, no leito de morte, propusera o dia de S. Tiago para a partida e, assim, no dia 25 de Julho de 1415 a frota saíu a barra. No dia 22 de Agosto, pela manhã, já as bandeiras lusas tremulavam na cidade, depois de violento embate guerreiro.
     As conquistas continuariam nos reinados seguintes (D. Duarte e D. Afonso) até que D. João III chegou à conclusão de que a manutenção das praças africanas eram económica e militarmente insustentáveis. A quando da Restauração de 1640, restava-nos precisamente Ceuta. Os seus habitantes optaram, porém, nessa altura, pela nacionalidade espanhola.
     D. Filipa de Lencastre usava a língua francesa, língua culta na Inglaterra de então. Aliás, ainda hoje, a legenda inserta na bandeira inglesa é em francês: DIEU ET MON DROIT. Os filhos tinham as suas divisas, os seus lemas, redigidos também em francês. D. Pedro usava as palavras DÉSIR, D. Fernando a expressão LE BIEN ME PLAÎT, D. João (infante) J'AI BIEN RAISON e D. Henrique esta outra: TALLANT DE BIEN FAIRE (ânimo de bem fazer). São as duas primeiras palavras (talent de) que se vêem escritas no balsão azul e branco pintado no fresco.
     Sobre a figura a cavalo (Infante D. Henrique) nota-se um estandarte semellhante ao real, com uma diferença: na parte de cima tem uma barra azul, em chefe, com três pendentes também azuis carregados com flores-de-lis. Esta diferença, denominada heraldicamente diferença pinchada (lambel ou banco de pinchar), significa que o seu utente é filho de rei, ao mesmo tempo que indica o grau na escala sucessória: o quarto. Com efeito, o primeiro filho (príncipe real) usa os pendentes sem qualquer carga, o segundo, com carga no primeiro, e assim sucessivamente.
     Na realiadade o grau sucessório de D. Henrique era o terceiro, pelo que a representação não se afirma rigorosa. Os pendentes são carregados com armas pertencentes à mãe. As armas inglesas, como veremos, continham a flor-de-lis e, por via disso, a sua presença na diferença pinchada do Infante.
* * *
     O fresco representa o embarque no caminho de Ceuta, em Miragaia. Os navios são carregados com provisões (carnes, barris de água, etc.) e tropas. A população assiste, com algumas mulheres chorando a partida de familiares. O Infante D. Henrique chega a cavalo e, ao som de trombetas, prepara-se para embarcar.
 
 
Casamento de D. João I (1387)
 
     Descrição:
     Grande painel a fresco cobrindo uma das paredes da Sala de Audiências do Tribunal da Relação.
     Em primeiro plano, ao centro, um casal real. Atrás, em cima, um templo onde um grupo de clérigos observa. Estandartes com as quinas e outros, figurando leões e flores-de-lis. Um grupo de damas desfila dançando.
     Vários grupos observam a cena central. Homens de armas assistem também. À esquerda corneteiros tocam. Dois cavalos aguardam, completamente ajaezados. Um bispo está postado junto do cavalo da direita.
     Significado:
     D. João I, no auge da luta pela independência de Portugal, aceitou de bom grado a colaboração inglesa, prometendo em contrapartida vir, um dia, a ajudar a concretizar as pretenções de João de Gaunt. Esta perspectiva era aliciante, pois significava mais um problema sério para o Rei castelhano. Mais tarde, D. João atemorizou-se com a ideia da junção dos reinos inglês e castelhano, visto que daí resultaria um potentado de tal envergadura que dificilmemte resistiria à tendência absorvente em relação a Portugal. A questão não chegou a pôr-se na medida em que, entretanto, derruíam os intuitos dos insulanos amigos, quanto a Espanha.
     Após Aljubarrota, o Rei português apressou-se a mandar a notícia para Inglaterra, onde os embaixadores D. Fernando de Albuquerque e Lourenço Fugaça negociavam a aliança e aliciavam mercenários. Preparou-se um encontro no Minho, junto à raia galega, começando a falar-se no casamento de D. Filipa. Esta, sua irmã e a sua mãe, ficaram em Cela Nova, perto de Orense, enquanto o Duque se adiantou até perto de Melgaço, junto da ponte do Muro, onde, no dia de Todos os Santos, se encontrou com D. João. A corte esplendorosa dos ingleses contrastava com a simplicidade épica dos portugueses envergando cotas rotas pelo uso intensivo. Apenas o Rei usava loudel de seda sobre a armadura.
     As conferências decorreram simbolicamente no interior da tenda do rei de Castela, tomada em Aljubarrota. Ficou aprazado o casamento, além do mais. No dia seguinte, o Duque ofereceu um lauto banquete nas suas tendas ornadas com deslumbrantes baixelas e tapeçarias, banquete que, no dia a seguir, o Rei retribuiu, utilizando-se ainda a célebre tenda castelhana, ampliada com caramanchões de folhagem.
     Mais tarde, vencidas as dúvidas que D. João tinha acerca da oportunidade do casamento que poderia lançar a cobiça inglesa sobre o território luso, o arcebispo de Braga e João Rodrigues de Sá foram buscar a noiva a Cela Nova e trouxeram-na para o Porto, ficando hospedada no paço episcopal enquanto D. João se instalou no convento de S. Francisco.
     No dia 2 de Fevereiro, dia da Purificação, pela manhã, o Rei e Nuno Álvares foram ao paço, ali travando conhecimento com a noiva. Lá se organizou esplenduroso cortejo, abrilhantado por uma orquestra de trombetas e flautas. Os noivos, com coroas de ouro e pedras preciosas, montavam, a par, dois cavalos brancos cobertos de xailes dourados. O arcebispo de Braga, ricamente paramentado, levava pela rédia o cavalo da Rainha, atrás do qual seguia o séquito numeroso de damas de honor e donas fidalgas, a pé. D. Nuno seguia ao lado do Rei. À porta da Sé esperava-os o bispo que os havia de casar, D. Rodrigo. No banquete da boda serviu de mestre de cerimónias o próprio condestável D. Nuno. O dia acabou com um magnífico baile. Seguiram-se 15 dias de festas, torneios e justas.
     Por todas as razões, D. João jamais se arrependeria de ter casado com esta mulher que amou verdadeiramente. Filha de um pai que era considerado um dos maiores libertinos de Inglaterra, deu «a seu marido a ventura, à sua corte o exemplo de moralidade e ao seu país adoptivo essa plêiade maravilhosa de principes (...)» (Pinheiro Chagas).
     O Duque de Lencastre, como filho de rei que era, usava as armas paternas carregadas com lambel ou banco de pinchar. Na diferença pinchada notam-se os pendentes carregados com penas de avestruz, armas provenientes do ramo materno.
     Os príncipes normandos adoptaram  como armas dois leões passantes, em pala. Os plantagenetas introduziram um terceiro leão. Em consequência das pretenções de Eduardo III de Inglaterra à coroa de França, foram introduzidas nas armas inglesas flores-de-lis de proveniência francesa, em 1340.
     A flor-de-lis de três pontas expressa a concepção trinitária da divindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e simultaneamente a hierarquização da sociedade feudal (clero, nobreza e povo).
* * *
     O fresco representa a saída da sé, realizado já o casamento. Enquanto o casal real se afasta, o bispo D. Rodrigo observa, postado com os seus acólitos, à porta do templo. A cabeça calva do Condestável vê-se atrás do casal. As damas inglesas, com brasões das armas estampados nas saias, manifestam a sua alegria dançando. Um grupo de populares dança também. Os cavalos que haviam transportado os noivos para a sé, esperam agora o regresso dos recém casados. Junto do cavalo da raínha mantém-se o arcebispo de Braga que fez questão de guiar o animal pela rédia.
     Estandartes nacionais e dos Lencastres erguem-se bem alto. Junto do maior estandarte inglês, ainda se vislumbra o henriquino pavilhão do «Talent de bien faire», mais completamente desenhado no fresco relativo à partida para Ceuta.
     Vários grupos de pessoas assistem ao luzido cortejo matrimonial. A guarda real encontra-se presente. Trombeteiros atroam os ares.
     Em cima, à direita, um saltimbanco, alegremente, faz as suas habilidades.