📗 As Pupilas do Senhor Reitor

Título: As Pupilas do Senhor Reitor - Chronica da Aldeia
Autor: Júlio Dinis, pseud.
Publicação: Lisboa : A Editora, [19--]
Ilustrações de: Alfredo RG (1864-1935)
Descrição física: [6], III, 433, [2] p. : il. ; 36 cm
Informação: ↗️Biblioteca Nacional de Portugal
Notas: Ilustrações da Colecção do Museu de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em depósito no Museu de Aguarela Roque Gameiro (Minde)

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1900- Diário de Lisboa - Roque Gameiro responde a propósito das Pupilas do Sr. Reitor
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1946-02 Menina e Moça (82)
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1946-02 Menina e Moça (82)
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Uma das obras que maior impacto teve no curriculum de ilustrador de Roque Gameiro foi o romance de Júlio Dinis, pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, As Pupilas do Senhor Reitor, publicado em folhetins no Jornal do Porto em 1866.

O artista revela neste trabalho, realizado entre 1904-1905, a extraordinária capacidade de adequar magistralmente as imagens ao texto e de compreender cabalmente a mensagem do escritor. Não se encontraria ilustrador que melhor expressasse o lirismo que impregna as páginas deste romance. Roque Gameiro descreve através da representação visual, aliando a vertente estética à literária.

Inicia pesquisas no Minho e no Douro para localizar a área geográfica onde decorrera a acção do romance a fim de conseguir uma documentação iconográfica condizente com as descrições paisagísticas do autor. Chega a comprar utensílios e trajes que eram usados na época e nessa região, para melhor os poder descrever visualmente. O pintor estabelece diferenças não só em função de particularidades do vestuário que as personagens envergam, mas igualmente relativas ao mobiliário que decora cada uma das habitações. As cenas de interior revelam bem o investigador atento, na medida em que nos apercebemos da categoria social de cada uma das personagens intervenientes na acção. O ambiente em que cada uma se insere é um testemunho do meio a que pertence.

Para a representação da figura de Clara o pintor toma como modelo a filha Raquel e da de Margarida, a sobrinha Hebe Gomes.

Num artigo do Diário de Lisboa da época, intitulado “Roque Gameiro responde às observações que lhe fizeram a propósito do local onde decorreu a acção das Pupilas do Senhor Reitor”, o pintor contesta que essa acção tivesse decorrido em Ovar. Estava convicto de que Júlio Dinis tinha localizado o romance em Santo Tirso, e apresenta dados incontroversos.

“Há muitos anos, ao tomar o pesado encargo de evocar, graficamente, a celebre obra, lidas e relidas as suas belas paginas, não consegui obter uma informação exacta daquela Crónica de aldeia. Nem mesmo o ilustre e graduado oficial de marinha (...) a quem, em derradeira esperança, recorri, me soube elucidar (...). Convencido de que o fundo do cenário não podia ser Ovar (...), palmilhei, de recanto a recanto, o norte todo. Encontrei em Santo Tirso - onde Júlio Dinis também esteve varias vezes e onde residiu demoradamente, a paisagem que se ajustava, com uma realidade de entusiasmar, às descrições do romance. Consultei o Comandante Gomes Coelho que concordou amplamente comigo. Instalei-me então ali e fiz viver a soberba anedocta rural nesse maravilhoso ambiente. Trajos e tipos, evoquei-os, dando côr e interesse, como me foi possível, às cenas rústicas (...). Como ilustrador tive que deixar de parte qualquer outra atitude que não fosse assente nas fontes de informação e na minha natural inspiração”1.

Na realidade, da simbiose entre a informação real e a inspiração do artista nasceu uma primorosa ilustração, que ficou para a posteridade como um importante documento iconográfico da paisagem, da indumentária, e do mobiliário do início da segunda metade do século XIX2.


Maria Lucília Abreu

in Roque Gameiro - O Homen e a Obra, ACD Editores, 2005

1 Roque Gameiro responde às observações que lhe fizeram a propósito do local onde decorreu a acção das “Pupilas do Senhor Reitor”. Diário de Lisboa . (Nota: não foi possível encontrarmos a data exacta do artigo - mas é depois de 1935).

2 Dinis, Júlio. As Pupilas do Senhor Reitor. Crónica da Aldeia. Grande edição de luxo com ilustrações de Roque Gameiro. A Editora. Largo do Conde Barão, Lisboa, s/d

Roque Gameiro revela na ilustração da edição da obra de Júlio Dinis cujo subtítulo é “Crónica de Aldeia”, a grande capacidade que tinha de adequar as imagens ao texto e de compreender inteiramente a mensagem do escritor. Recriou a aldeia idealizada pelo escritor a partir dos ambientes rurais do Minho e do Douro. Aí fez pesquisas para localizar a área onde decorrera a acção do romance de maneira a ilustrar condizente com as descrições que o autor fazia das paisagens. Comprou utensílios e trajes usados na época para melhor os poder descrever. Todo o seu trabalho de ilustrador revela o investigador atento. Roque Gameiro tomou como modelos, para representar as personagens Clara e Margarida a filha Raquel e a sobrinha Hebe Gomes.

Numa entrevista dada ao Diário de Lisboa , Roque Gameiro contesta a algumas perguntas sobre o local onde decorreu a acção das Pupilas do Sr. Reitor:
“...Convencido de que o fundo do cenário não podia ser Ovar (...), palmilhei, de recanto a recanto, o norte todo. Encontrei em Santo Tirso - onde Júlio Dinis também esteve várias vezes e onde residiu demoradamente -, a paisagem que se ajustava, com uma realidade de entusiasmar, às descrições do romance.”

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...commigo, nunca elle fez farinha...
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...o grupo que formavam, n'aquelle momento...
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...mas, ao ver sumirem-se atrás de si as copas das árvores,...
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Ó rio de águas Claras,
que vaes correndo
p'ró mar;

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...pôz-se, por sua vez, a trabalhar.
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Aguarela e guache sobre cartão 33x25 (c.1904)
...elle mexia e remexia nos bolsos do colete,...
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Clara tomou as mãos da irmã,...
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João da Esquina conservava sobre José das Dornas um olhar desconfiado.
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- E tu? - Não tenho nada; -... perdi e devo.
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A glória eterna, a bemaventurança do Céo! - Respondeu o reitor com a firme convicção da fé.
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A Vizinhança toda affluiu curiosa ás portas e ás janelas para ver o facultativo novo...
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É meu irmão - Dizia Pedro, sorrindo.
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Aguarela 34x25
Este Cavalleiro era João Semana.
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...uma posta d'esse terceiro inimigo, que tão bem assado está.»
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Aguarela 34x25
De que se ri? - perguntou Daniel, voltando-se.
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...segredou á menina algumas amabilidades de effeito salutar.

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A snrª. Thereza não deixou sahir Daniel sem que elle visse todas as obras de crochet...
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«Trigueira» - leu elle,...
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...divertiu-se a atirar biscoitos a um cão, que andava solto pela quinta.
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- Dize assim - disse-lhe este - Também gosto, sim, senhor.
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Aguarela 35x26
Á porta das duas irmãs estava sempre sentada a caridade.
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A essa, apertou-a ao peito, de maneira a redobrar o enleio, em que se achava já a rapariga.
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- Clara! - disse Margarida em voz baixa, puxando pelo vestido da irmã.

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Neste momento pareceu-lhe ouvir algum rumor d'aquele lado.
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- Alto, miserável! Pára, ou estás morto!
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(Pág. 341)
- Que faz aqui? - perguntou-lhe, segurando-o com força pelo braço,...

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Margarida seguia o texto, olhando por cima dos ombros da creança,...

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(Pág. 360)
Ao rumor de seus passos, ergueu-se, de súbito, uma mulher,...

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Aguarela e guache sobre cartão 34x26cm
E você, sua rata de sachristia, tem alguma coisa com isso?...

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Ergueu novamente as mãos, como a invocar a influência do céo,...
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